(…)
Dizem
que o mercado perdeu a confiança perante o primeiro pestanejar do Estado.
(…)
Uma
confiança que a ausência de Estado tem alimentado sem que isso resulte em preços
acessíveis.
(…)
Até às
manifestações do último fim de semana, o debate foi monopolizado por senhorios,
representantes de grandes proprietários e empresário de AL, ignorando a maioria
dos interessados.
(…)
Fruto
da desigualdade de acesso ao espaço público, tratou-se a mera interdição de
manter casas devolutas onde haja grande pressão de procura como expropriação.
(…)
É o
que acontece quando se fica quase sozinho na arena: perde-se a noção da medida.
(…)
Moedas
e Moreira até se sentiram à vontade para ignorarem protestos populares e
manifestarem-se ao lado dos empresários do AL.
(…)
Todos
os debates políticos são pragmáticos e ideológicos.
(…)
Quando
alguém finge ter uma posição estritamente pragmática é porque sente que o
debate ideológico não lhe é favorável.
(…)
Quando
a direita diz que a privatização de partes do SNS não deve ser analisada do
ponto de vista ideológico é porque reconhece o valor simbólico do SNS público
para a maioria dos portugueses.
(…)
Quando
reduz o debate sobre a habitação ao direito absoluto à propriedade (…) é
porque sabe que há uma perceção das consequências nefastas do laissez-faire.
(…)
Qualquer
ator político tem de casar a eficácia pragmática das suas propostas com alguma
solidez ideológica.
(…)
Por
outro, é na Escola Pública que construímos a igualdade de oportunidades e o
sentido de comunidade.
(…)
Nem em
posições que são populares o Governo consegue lidar com a barragem ideológica e
mediática.
(…)
Agora,
com um Governo impopular de que o resto da esquerda quer distância, até o que é
popular é difícil de vender.
(…)
Este
ambiente, a que a crise inflacionista não é alheia, foi preparado por Costa.
(…)
Quando,
não satisfeito com isso [esmagamento dos seus parceiros de esquerda, Costa],
tenta asfixiar a ala esquerda do seu próprio partido.
Daniel Oliveira, “Expresso” (sem link)
O dado
mais expressivo [da última sondagem publicada pelo “Expresso”] é que dois
terços das pessoas acham que o Governo é “mau” ou “muito mau”.
(…)
A
esquerda sofreu a decisão difícil de não aceitar as condições que o PS colocou
há um ano, o que levou ao choque do orçamento.
(…)
Mas o
facto é que a esquerda quis uma solução para o país no SNS, na precariedade dos
mais jovens e políticas de habitação.
(…)
A
conta certa seria aumentar os salários, recuperar pensões, aumentar o
investimento na saúde.
(…)
O que
se pretende dizer com a conta certa é não gastar para não ter défice.
(…)
A
ideia de que a economia melhora tendo o défice muito pequeno é uma estupidez
monumental.
(…)
A
política orçamental do Governo é cruel. Este orçamento é bacoco.
(…)
É a
explicação de que no passado não fizeram o que tinham de fazer quando podiam,
porque o juro era zero ou negativo.
(…)
O que
me preocupa é que a recuperação da esquerda é lenta porque a fratura que
produziu a maioria absoluta foi profunda.
(…)
O
custo de não aceitar um OE que fosse prejudicial ao SNS e à política de
habitação é forte. Era obrigatório correr o risco e ser coerente.
(…)
Um
governo à esquerda tem de ter um projeto social para Portugal que responda aos
problemas das pessoas e conjugar forças.
(…)
Acho
que nenhum partido de esquerda chegará sozinho ao poder.
(…)
Surpreendeu-me
bastante muitas das expressões da amargura ou da violência com que [Costa] tratou
Catarina Martins. Nunca lhe ficou bem.
(…)
Costa tem
uma dívida enorme para com Jerónimo de Sousa e Catarina Martins.
(…)
E logo
que pôde quis separar-se dos partidos que condicionam a sua política porque
queria virar à direita.
(…)
O que
resolve [o problema da inflação] é o aumento dos salários e pensões.
(…)
Os €3
mil milhões que sobraram podiam ser aplicados nisso. Permitia mais consumo,
mais impostos.
(…)
Há
irritantes em Portugal que acham que as pessoas vivem melhor se tiverem menos.
(…)
Creio
que a esquerda tem de fazer oposição clara a esta maioria absoluta.
(…)
O PS
adora a ideia de o Chega crescer. porque é uma forma de limitar o PSD.
(…)
Costa
abre caminho para um governo PSD-Chega.
(…)
Nada
derrotará a vontade de quem queira fazer da democracia uma raiz do povo.
(…)
Mariana
Mortágua é criticada hoje por aquilo que levou toda a gente a elogiá-la no
passado por fazer as perguntas certas a Ricardo Salgado, aos donos disto tudo.
(…)
Precisamos
de alguém nas finanças que olhe para as pessoas como se não fossem simples
números ou objetos de impostos na fila do Centro de Saúde.
Francisco Louçã (entrevista), “Expresso” (sem link)
Nem nesta geografia portuguesa, una e indivisa, o centralismo deixa de
ser pedante.
(…)
Ao poder central, enquistado na letargia e apostado na manutenção dos
interesses instituídos, o país continua a pesar como um fardo.
(…)
O que seria a reforma estrutural da
habitação, mais do que urgente e vital, transformou-se no mais pré-anunciado
veto presidencial de uma legislação de que há memória.
(…)
A regionalização, medo maior dos caciques
nacionais, multiplica-se em mil adamastores do empata, baralha e dá de novo.
(…)
Alegar justa causa para o despedimento da
gestora [da TAP] num processo com esta complexidade, teia de mentiras e
omissões, é tudo menos "juridicamente blindado", como assegurava
Fernando Medina.
(…)
Se o poder central trata assim questões
de uma companhia nacional que vive ao lado, como se espera que possa curar de
perceber o país à distância?
Uma
religião que tanto defende o amor ao próximo deu-se pouco ao trabalho ao longo
dos séculos para identificar aqueles que foram crucificados ao lado de Jesus de
Nazaré.
(…)
O
Direito romano era particularmente cruel com aqueles a quem condenava como
traidores ou hostes
(inimigos) de Roma ou do Senado romano.
(…)
O nome de Jesus não se apagou, fruto da religião que o
resgatou a essa condenação.
(…)
“Estudiosos de variadíssimas procedências
ideológicas” concluíram que “esse visionário apocalíptico que foi Jesus deveria
estar implicado em algum tipo de resistência anti-romana” e morreu pela sua
ousadia rebelde.
António Rodrigues, “Público” (sem link)
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