Fonte: wehavekaosinthegarden
quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
Cair do muro da crise
Quando ouvirmos os políticos falarem de crise e sacrifícios convém que não nos esqueçamos de lhes lembrar que a culpa da crise é deles. A culpa é do liberalismo, do capitalismo, da globalização, da ganância de alguns e da sua permissividade e cumplicidade. Assim como também o é o sofrimento de centenas de milhares de desempregados e de milhões de pobres. Infelizmente neste país, com as lavagens de cérebro e a propaganda televisiva que todos os dias nos adormecem e convencem, ainda acabamos a transformar em heróis os responsáveis pela nossa desgraça.
Fonte: wehavekaosinthegarden
O País levezinho - Fernando Sobral
Os filósofos chineses que criaram a estrutura do seu Estado consideravam que a força de um país dependia da lei. Nenhum país é permanentemente forte ou fraco, diziam. Ou seja, se a adaptação à lei é forte, o país é forte; se não, é fraco. Se aplicarmos estes princípios aos nossos dias, poucos duvidarão de que Portugal é um país levezinho. Nos últimos anos, a justiça parece uma cena do deplorável programa "Acorrentados": os processos nunca mais chegam ao destino. Caminham, de incidente em incidente, até ao esquecimento ou à nulidade. Com o tempo criou-se em Portugal um complexo labirinto jurídico onde se perdem inocentes cordeiros e lobos disfarçados. E se perde, também, o País. Nenhum país consegue sair do pântano carregando às costas processos que, desde o início, têm todo o tipo de entraves, criados pelos biombos do próprio poder judicial. No labirinto judicial português, até Minotauro se perdeu. O destino das escutas entre José Sócrates e Armando Vara e as declarações de Pinto Monteiro e de Cândida Almeida dizem muito sobre a fraqueza do nosso Estado. A justiça de Portugal é de cristal reciclado: parte-se, mesmo sem o auxílio da madame Castafiori. Cada vez que há um caso do estilo do "Face Oculta", pede-se, normalmente, mais uma tonelada de legislação. Tanta legislação criou em Portugal um palheiro legal onde a justiça final é mais difícil de descobrir que uma agulha. Muitos esperam que o "Face Oculta" se transforme no processo "Bela Adormecida". Mas aí o Estado português ainda ficará mais fraco.
Fernando Sobral - Jornal de NegóciosMINI ENTREVISTA
Os dois jornais diários que se publicam em Coimbra são, por assim dizer, em termos políticos, uma coutada do PS e da direita. O Bloco de Esquerda é tratado como se tivesse uma representação residual no distrito.
O exemplo surge sob a forma de uma entrevista de ¼ de página ao líder da bancada do BE, José Manuel Pureza (JMP), eleito pelo círculo de Coimbra.
Nesta entrevista, JMP mostra-se “perplexo” pela opção do Partido de Sócrates no sentido da “manutenção do mesmo rumo, apesar de fortemente penalizados nas urnas” aquando das últimas legislativas - que valeu a perda da maioria absoluta. Seria de esperar uma “inflexão” do primeiro-ministro já que, “depois destes quatro anos, a continuidade é criticável e incompreensível”.
Quanto às prioridades do Bloco de Esquerda, respondendo àqueles que criticam este partido por colocar na sua agenda temas fracturantes como o casamento de homossexuais, JMP enumerou os objectivos que considera mais relevantes neste início de legislatura:
- “Revisão dos métodos de cálculo dos subsídios de desemprego e das pensões”;
- “Encontrar mecanismos para acentuar a protecção social aos mais desfavorecidos”;
- “Terminar com injustiças grosseiras criadas pelo Governo anterior, como são os casos da avaliação dos professores e das taxas moderadoras para internamento e cirurgias”.
É de crer que só estes pontos irão fazer “correr muita tinta”.
Não se espere, no entanto, que o desenvolvimento destes objectivos nem os seus resultados venham alguma vez a ser apresentados nesta imprensa. Em Portimão sabemos como é…
terça-feira, 10 de Novembro de 2009
EXPULSÕES NO PS: CERCA DE 200
A contrapropaganda do regime não conseguiu mais silenciar que o PS se prepara para expulsar perto de 200 militantes do Porto, por terem apoiado ou integrado listas autárquicas contra candidaturas socialistas. Só em Matosinhos serão 89 e em Valongo 53, segundo a última edição do “Expresso” (7/11/2009).
Uma das curiosidades desta notícia é que não se deu conta que tenha passado na restante comunicação social, especialmente, na televisão. Porque será?...
A provável expulsão de 200 militantes de um partido político, seja ele qual for, é sempre notícia, em especial, tratando-se do partido mais votado nas últimas eleições legislativas e que suporta o actual Governo.
É bom lembrar que na última campanha eleitoral, quando a comunicação social fazia referência ao actual deputado do PS, João Vale de Almeida, acrescentava sempre que se tratava de um antigo bloquista. O PS apresentava-o como uma espécie de troféu de caça, sabendo-se que ele saiu do Bloco pelo seu próprio pé.
Agora são quase duas centenas de militantes que o partido de Sócrates se prepara para expulsar mas, ao mesmo tempo, gostaria de o fazer pela calada da noite, se possível, sem uma palavra na comunicação social. Tão tolerantes e democráticos que eles são…
Denúncia de obra na Fuzeta
Olhão, 9 de Novembro de 2009Exmo. Presidente da Câmara Municipal de
Olhão
João Manuel Dias Pereira, vereador eleito pelo Bloco de Esquerda contribuinte nº
181 894 343, vem por este meio pedir esclarecimentos sobre uma obra de grandes
dimensões que está a realizar-se na Fuzeta, sito em R. Nossa Sra. do Carmo (ver imagem
abaixo onde se indicam as coordenadas), pois iniciaram-se movimentações de terra,
marcações de cotas de soleiras e colocação de estacas de topografia encontrando-se
nessa obra uma máquina giratória e contentores de obras.
Esta obra encontra-se numa área protegida a menos de 10 metros da Ria Formosa o
que me preocupa pois não cumpre com o obrigatório preceituado na lei 555/99 de 16 de
Dezembro nos artigos 12, 61e 78 alínea 1 e também o decreto-lei 61/99 de 2 de Março
artigo 34 alínea 4. A minha maior preocupação prende-se com a dúvida: será que essa
obra tem o devido EIA (estudo de impacto ambientais e AIA (avaliação estratégica
ambiental) conforme estipula a lei 69/2000 de 3 de Maio anexo II artigo 10º alínea a) e
b) com as devidas alterações introduzidas com a lei nº 197/2005 e rectificação 2 de 2006?
Assim, pelo exposto, espero ser o mais rapidamente esclarecido e que, se as referidas
obras não se encontrarem de acordo com o preceituado descrito acima, a Câmara e os
seus fiscais actuem em conformidade com o estipulado na Lei.
Saudações cordiais,
O Vereador
domingo, 8 de Novembro de 2009
UMA QUASE FRAUDE

OPINIÃO (IX)
O Programa Novas Oportunidades, até pela sua própria designação, é o exemplo acabado daquilo que se costuma intitular de politicamente correcto.
Desde o seu lançamento até final de Outubro deste ano já se tinham efectuado mais de 1 milhão de inscrições de adultos e atribuído 320 mil diplomas.
Sabendo da geral apetência dos portugueses por um diploma, mesmo que não signifique quase nada em termos de aptidões e conhecimentos, o Governo Sócrates resolveu explorar uma mina que, para além de, estatisticamente, melhorar, de um dia para o outro, as aptidões académicas dos portugueses, conquista a simpatia de muitos eleitores e, por conseguinte, o voto.
É certo que é melhor que nada mas, qualquer pessoa que contacta com esta realidade reconhece, facilmente, que constitui uma quase fraude. Décadas atrás chamava-se a esta habilidade “passagem administrativa”. Por assim dizer, tratava-se de obter a aprovação numa ou mais disciplinas de um curso, sem ter de prestar provas. Este expediente traz mais uma desmotivação para os jovens que actualmente frequentam a escola pois eles sabem que, se não obtiverem agora um diploma, mais tarde chegarão a ele, com muito menos esforço.
Em vez de se proporcionarem verdadeiras condições para as pessoas puderem estudar, tais como horários de trabalho compatíveis com a frequência de uma escola, oferecem-se, de mão beijada, diplomas que não têm qualquer significado como prova de aprendizagens realizadas. Qual é o empregador que leva a sério um diploma destes? Há quem lhe chame certificado de ignorância.
Luís Moleiro (aderente do BE)
sábado, 7 de Novembro de 2009
Tori Amos-"Sleeps With Butterflies"
* Adoro -
Sweet The Sting
Sweet The Sting | Doce o envenenar |
| With a strut into the room | Com andar esnobe caminha pelo quarto, com seu chapéu torto certamente desafiador |
| With his hat cocked sure defiantly | Ele disse "eu, eu tenho ouvido que você pode tocar do jeito que eu gosto que seja tocado" |
| He said: "I, I have heard that you can play | Eu disse "eu posso tocar do modo que você desejar.mas primeiro eu quero, quero saber |
| the way I like it to be played." | |
| I said: "I can play anyway that you want, | |
| but first I want, I want to know..." | |
| Baby, is it sweet, sweet, sweet the sting? | Querido, este é doce o envenenar? |
| Is it real, this infusion? | É realmente uma infusão - pode isso curar onde outros tem falhado antes?" |
| Can it heal where others before have failed? | Se sim, então "alguém me deixe sã, |
| If so, then somebody shake, shake, shake me sane | Porque estou cada vez mais próxima da cauda deste escorpião" |
| 'Cause I am inching ever closer | |
| To the tip of this scorpion's tail | |
| He said: "I laid my weapons down | Ele disse "eu deixei minhas armas abaixadas, com meu cartucho totalmente carregado, |
| with my pistol fully loaded. | Um homem caçado ao sexo, que vai começar ou terminar no seu suco vermelho?" |
| A hunted man to my root, | |
| will it end or begin in your cinnabar juice?" | |
| Is it sweet, sweet, sweet your sting? | Amor me deixe respirar |
| Is it real, your infusion? | Deixar você vir |
| Can it heal where others before have failed? | Derreter a confusão |
| If so, then somebody shake, shake, shake me sane | Até que aqui haja |
| 'Cause I am inching ever closer | Aqui haja você - união. |
| To the tip of this scorpion's tail | |
| Love, let me breathe | |
| Breathe you in | |
| Melt the confusion | |
| Until there is | |
| There is union | |
| Baby, is it sweet, sweet, sweet your sting? | |
| Is it real, your infusion? | |
| Can it heal where others before have failed? | |
| If so, then somebody shake, shake, shake me sane | |
| 'Ca-cause I am inching ever closer | |
| To the tip of this scorpion's tail | |
| Baby, is it sweet? | |
| Baby, is it sweet, boy? | |
| Baby, is it sweet? |
CARTÃO DE VISITA
OPINIÃO (VIII)
CARTÃO DE VISITA
Nem tarde nem cedo. Parece ter sido de propósito que, exactamente, no próprio dia em que o novo governo tomou posse, veio a público a notícia de que, em breve, iria ser transposta para a legislação portuguesa uma directiva da UE sobre Serviços de Pagamentos. Essa directiva que não é de aplicação obrigatória entrou em vigor em 1 de Novembro, permite aos comerciantes cobrarem uma taxa sobre os pagamentos com cartão ou seja, cada vez que o consumidor quiser pagar com aquilo que se considera uma das grandes invenções do século XX, pode ser cobrado por isso. A introdução desta taxa que está a passar despercebida à opinião pública, consubstancia, por assim dizer, um novo imposto, imposto esse que, em vez de ir para os cofres do Estado, vai engordar os já lautos lucros da banca. Se acrescentarmos a este facto a vontade, por mais que uma vez expressa pelo sector bancário, da aplicação de uma taxa de utilização das caixas Multibanco, então, estamos conversados… Sabemos que, nestas situações, por muito baixo que seja o valor inicial a pagar, o pior é começar. Daí em diante, já não pára e é sempre a subir.
É bom recordar que a criação dos cartões para pagamentos e serviços, para além de facilitar muito a vida dos cidadãos e empresas, veio também baixar muito os custos de mão-de-obra para o sector bancário.
Não mais é preciso ir ao banco para levantar dinheiro, fazer transferências de verbas ou efectuar pagamentos. A qualquer hora do dia ou da noite, há milhares de máquinas espalhadas por todo o país que o permitem, com toda a facilidade. Também não nos devemos esquecer que, no início, a utilização de cartões tipo Multibanco era grátis e compreendia-se que assim fosse, devido à diminuição de despesas que os bancos iriam beneficiar.
A partir do momento em que os detentores de cartões já estavam “agarrados”, a banca começou a cobrar uma anuidade e o comércio ficou sujeito a uma taxa sobre cada valor pago. Daqui em diante verificou-se que muitos comerciantes preferiam receber os pagamentos em dinheiro ou em cheque, neste caso só para os clientes que ofereciam total confiança.
Sendo do conhecimento geral que a maior parte dos países da UE não vai transpor para a sua legislação esta directiva e que a banca portuguesa acumula lucros fabulosos, mesmo em tempo de crise, ficamos a saber, para além da verborreia que todos os dias inunda a comunicação social, de que lado se encontra o Governo… O comum cidadão português verificou que, entre ele e a banca, o Governo não tem dúvidas e opta pelo apoio aos mais fortes. Estamos esclarecidos…
Apesar de a criação da nova taxa estar a passar despercebida no mercado português, já apareceram alguns sinais contraditórios a que devemos estar atentos:
- O Banco de Portugal parece não se ter oposto à versão adoptada pelo Governo o que não constituirá grande novidade.
- As organizações de defesa dos consumidores estão contra a taxa.
- O comércio tradicional compreende que os consumidores rejeitam tal medida, mostra renitência em aplicá-la.
- A banca não comenta. Percebe-se…
- As grandes superfícies não confirmam nem desmentem a possibilidade de aplicação da taxa.
Se bem que, por enquanto, nem tudo seja más notícias, a verdade é que só uma reacção enérgica dos consumidores e de todas as forças que se encontram a seu lado pode garantir que fique gorada mais esta medida lesiva do cidadão comum levada a cabo por um Governo dito de esquerda.
Luís Moleiro Santos, aderente do BE
sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
Direito de tendência: transparência é vital!

Artigo 4º
Direitos dos Aderentes
1 – São direitos dos aderentes do Bloco de Esquerda:
a) Participar democraticamente na definição da política do Movimento e nas
suas actividades.
b) Eleger e ser eleito para todos os órgãos e cargos definidos na estrutura do
Movimento.
c) Ser informado sobre a actividade do Movimento.
d) Exercer, querendo, o direito de tendência no âmbito do Movimento.
2 – O exercício dos direitos dos aderentes do Bloco de Esquerda depende do
pagamento da quota anual, quando não seja dispensada nos termos do
número 4 do artigo 5º.
A consagração do direito de tendência nos Estatutos do Bloco de Esquerda, faz do partido-movimento um exemplo de democracia no sistema partidário português.
Mas, à semelhança do que sucede com muito do que está expresso na Constituição da Republica Portuguesa, o direito de tendência precisa muito mais do que o mero reconhecimento formal.
Desde logo, para existir e ser praticado, o direito de tendência precisa de tendências constituídas e reconhecidas enquanto tal. Sem tendências não há necessidade de se instituir o direito de tendência!...
A iniciativa para a constituição de uma tendência, revela também, por parte de quem a tem, cultura democrática e transparência para o debate. Esta é uma questão muito importante, já que, no interior do Bloco, e, não obstante o direito de tendência estar consagrado nos Estatutos e regulamentado há duas Convenções, a iniciativa para a constituição de tendências ainda é muito limitada e reduzida a duas tendências que se constituíram entretanto: a Luta Socialista (afecta à FER/Ruptura, também fundadores do Bloco de Esquerda) e à Esquerda Nova (constituída por militantes sem ligações a outros grupos, movimentos ou partidos).
Como é sabido, o Bloco de Esquerda teve na sua fundação a convergência de três partidos/movimentos: a UDP, o PSR e a Política XXI. Esta convergência tem, ao longo das últimas Convenções Nacionais, produzido Moções que foram aprovadas maioritariamente e, como tal, resultaram naquilo que é a maioria da direcção nacional do Bloco de Esquerda.
Entretanto, a UDP e o PSR, partidos, decidiram transformar-se em “Associações Políticas”. No entanto, não se constituíram em tendências, tal como é definido pelos estatutos do BE.
Aparentemente, os aderentes do BE que eram dos partidos PSR e UDP, que passaram a “Associações”, passaram a aderentes sem tendência. No entanto, é sabido por toda a gente, até pela própria imprensa, que a Associação PSR e a Associação UDP continuam a ter vida (pelo menos, têm portal na net e publicam revistas e outros documentos), tal como a Política XXI, reunindo os seus militantes/aderentes decidindo, nessas reuniões, o que fazer e não fazer no interior do Bloco.
Dessas Associações fazem parte os dois dos principais dirigentes do Bloco, como por exemplo, Francisco Louçã e Luís Fazenda, os quais já afirmaram por diversas vezes que não pertencem a nenhuma tendência interna no BE.
É claro que qualquer militante/aderente do Bloco é livre de pertencer ou não pertencer a tendências, quaisquer que elas sejam. Mas, neste caso concreto, é, no mínimo estranho e no máximo preocupante, desde um ponto de vista democrático, que os principais dirigentes do BE se tentem desvincular de tendências quando, na prática, pertencem e participam nas actividades de “Associações” que mais parecem fachadas que encobrem “partidos” que não querem ser tendências.
O que está em causa é a transparência. Condição muito importante em e para qualquer debate democrático.
A existência de tendências é uma prática histórica no movimento socialista internacional de tradição não autoritária. Sempre houve correntes diferentes que souberam debater entre si e sempre souberam o que era a unidade na diversidade. A própria fundação do Bloco de Esquerda é uma demonstração prática de uma unidade na diversidade, de uma unidade construída na transversalidade das experiências diversas de diferentes correntes e militantes das esquerdas.
No entanto, o que hoje se verifica no Bloco, é uma grave divergência entre o que está instituído nos Estatutos e o que se verifica na prática. Essa divergência tem o nome de falta de cultura democrática! Parece que alguns camaradas provenientes de áreas com tradição autoritária à esquerda, ainda não se libertaram totalmente de alguns preconceitos relativamente a boas práticas democráticas, nomeadamente no que diz respeito ao direito prático à diferença e à possibilidade de, no seio de um partido-movimento, poderem coexistir, em unidade e democracia, correntes organizadas com visões políticas diferentes.
Falamos de transparência, falamos de cumprimento prático dos próprios Estatutos do Bloco de Esquerda, falamos de caminhos que propiciem um debate sadio, fraterno e convergente, falamos também de caminhos para que o Bloco de Esquerda possa crescer em militantes/aderentes, tal como cresceu eleitoralmente, falamos, também, de práticas que evitem que o Bloco se reduza aos líderes com saída mediática!
ALVOROÇO NA JUNTA DE FREGUESIA DE OLHÃO
Comunicado
ALVOROÇO NA JUNTA DE FREGUESIA DE OLHÃO
Na votação para a constituição da Assembleia de Freguesia de Olhão pela primeira vez a oposição derrotou o PS, colocando mais lugares no executivo da Junta, deixando a nu a falta de convivência do PS com a democracia. Depois de uma votação que decorreu sob a orientação da Dra. Gracinda Rendeiro (independente eleita pelo PS) de forma isenta, os elementos do PS puseram a imparcialidade da sua Presidente de Junta em causa de modo agressivo, impugnando a eleição e abandonando a Assembleia em total desrespeito, por todos os presentes e pelas regras democráticas. Após um empate na votação das listas apresentadas, passou-se a votação uninominal e aí o PS apresentou duas vezes o candidato nº 2 Luciano de Jesus, sendo derrotado em ambas as vezes pelos nomes apresentados pela oposição.
Pela insistência percebeu-se que era este o sucessor indicado, como se de uma Monarquia se tratasse para mais tarde suceder à Presidente em exercício. Como não conseguiram os seus intentos com a votação democrática, havia que fazer de tudo para reverter a situação.
Primeiro pela impugnação, segundo pela pressão exercida sobre a Presidente de Junta levando-a a demitir-se, o que veio a acontecer. Assim o presidente de junta por inerência seria o referido nº 2, Luciano de Jesus. Só que a pressão foi tanta que a Presidente desmaiou caindo desamparada com a nuca sobre a fotocopiadora, o que por mero acaso não teve consequências mais graves tendo que ser levada pelo INEM para o Hospital. Houve ainda outra situação caricata.
A Dra. Lídia Leote (PS) depois de ter assinado o protesto apagou a sua assinatura com um corretor, seguidamente os subscritores do protesto vieram assinar posteriormente o contra protesto da oposição. O Bloco repudia estes métodos de fazer política que prejudicam o regular funcionamento das instituições e prejudicam os olhanenses.
E vem reforçar que continuará a dar conhecimento das situações anómalas que ocorram nas reuniões dos órgãos em que foram eleitos e nas reuniões que assistam. Em anexo a este comunicado segue a Acta lavrada da dita reunião e o protesto e contra protesto.
Olhão, 03 de Novembro de 2009
O Secretariado do Bloco de Esquerda de Olhão
A Queda da República (Fall of the Rep*blic)
quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
Food Matters
O que deveria fazer o Bloco de Esquerda?
Antes de responder à pergunta que dá o título a este texto para debate, é preciso ter presente uma outra: como se define o Bloco de Esquerda?
Convém não ignorar que, perante as pessoas concretas que vivem e trabalham no dia-a-dia, o BE continua como uma espécie de “frente” que agrupa correntes ideológicas que vão desde os maus “puros” estalinistas até a social-democratas com complexos de esquerda. Esta amálgama de correntes começa por transmitir ruído e confusão a quem tenta perceber algo mais sobre as propostas do Bloco.
O Bloco de Esquerda deveria assumir inequivocamente um sentido de afirmação democrática e socialista. Não tem nada a ver com as correntes estalinistas, nem com as correntes social-democratas que não rejeitem o liberalismo e o capitalismo. O Bloco de Esquerda deveria ter uma posição de total repúdio por todas as formas de autoritarismo e totalitarismo.
O Bloco de Esquerda deveria defender a interligação activa entre as formas de democracia participativa com a democracia representativa. Deveríamos defender que é urgente encontrar caminhos para a democracia política e social que vençam a crescente abstenção eleitoral e vençam também os bloqueios que o liberalismo e a dita economia de mercado criaram à participação democrática das pessoas. O poder e o exercício do poder não deve ser algo distante das pessoas que trabalham, que pagam os impostos, que consomem, que vivem o dia-a-dia.
O Bloco de Esquerda parte da realidade das lutas sociais, dos jovens, dos trabalhadores, das mulheres, das incontornáveis classes sociais, para a definição das suas propostas concretas . E é na constatação das limitações endémicas à economia de mercado, i.e. o capitalismo, para a formulação de soluções de justiça social, que o Bloco de Esquerda defende um modelo alternativo de socialismo democrático e libertário. Os adjectivos ao “socialismo” justificam-se pela imensidão de “socialismos” que negam o próprio socialismo …
Partindo desta alternativa de socialismo democrático e libertário, o Bloco de Esquerda deveria diferenciar-se, no plano político e ideológico, dos modelos ditos “socialistas” autoritários e capitulacionistas face ao neo-liberalismo, embora se deva dirigir socialmente a todas as mulheres e homens que se reinvindicam das esquerdas e por outros modelos societários.
No caso concreto da realidade política portuguesa, aquela onde o BE intervém prioritariamente, deveria haver uma assunção estratégica de apelo a uma alternativa de governo à esquerda, baseada nas esquerdas representadas na Assembleia da Republica, como forma de dar expressão política à maioria social de esquerda, expressa em sucessivos actos eleitorais. Ou seja, o Bloco de Esquerda não é uma “vanguarda” dessa alternativa de governo, mas um pólo social e político que luta, com todas as suas forças, pela concretização dessa alternativa.
No quadro dessa maioria social de esquerda, o Bloco de Esquerda deveria também assumir-se, com muita clareza, como o pólo socialista democrático e libertário e, para isso, estaria politicamente empenhado na reorganização do espaço político que é identificado na dita opinião pública como sendo o “espaço socialista” em Portugal. Ou seja, a base social e militante à qual o BE se deveria dirigir permanentemente é a do PS, dos simpatizantes e militantes em ruptura com o PCP (ex.: renovação comunista), dos imensos “independentes de esquerda”, dos ainda agrupados noutros grupos, movimentos e partidos sem expressão eleitoral (menos de 1% nos actos eleitorais).
O Bloco de Esquerda dirige-se a essa base social mantendo sempre presente a mensagem estratégica fundacional: é possível criar condições organizativas para se realizar uma síntese política e ideológica, em condições de democracia e de liberdade, entre todos que pretendam uma alternativa de socialismo que rejeite todos os modelos de autoritarismo, de totalitarismo e de capitulacionismo face ao liberal/capitalismo.
Organizativamente o Bloco de Esquerda deveria reforçar o seu carácter de partido-movimento, aprofundando o seu direito interno de tendência e abrindo a sua organização à adesão de grupos e movimentos sociais e políticos que aceitem, de facto e formalmente, os seus Estatutos aprovados em Convenção Nacional. Consequentemente todos os fóruns e meios de comunicação e informação criados e/ou patrocinados pelo BE deveriam sempre reflectir essa realidade organizativa plural e diversificada. O que constituiria um exemplo em todo o sistema politico e partidário português!
Também no plano organizativo interno, seria salutar, desde um ponto de vista democrático, que a eleição dos órgãos regionais, distritais, concelhios e de freguesia pudessem passar a contar com a escolha democrática, pelos aderentes/militantes, entre diversas listas/propostas na base de programas de acção diferentes e alternativos. O contraditório democrático sempre foi esclarecedor, mobilizador e unitário! Quem não o pratica é que arrisca sempre a periódicas dissidências e colectivas saídas…
Apreciação sobre os resultados das Eleições Autárquicas
Nas autárquicas de 11 de Outubro o Bloco de Esquerda não conseguiu, a nível nacional, os objectivos propostos: eleição de vereadores em Lisboa e no Porto, eleição de vereadores noutros concelhos e conquista significativa de novos membros municipais e de assembleias de freguesia, e aumento substancial da votação (houve excepções, poucas – Salvaterra de Magos, Entroncamento, Moita, Almada Seixal e Olhão). O Bloco apenas elegeu mais 2 vereadores do que tinha anteriormente, passando de 7 para 9 – conseguiu mandatos em Salvaterra de Magos (4), Entroncamento (1), Moita (1), Almada (1), Seixal (1) e Olhão (1), perdendo o de Lisboa. Para as Assembleias Municipais conseguiu mais 25 mandatos, passando de 114 para 139 e para as freguesias conseguiu apenas mais 6, passando de 229 para 235.
Para as Câmaras Municipais o Bloco obteve 167.063 votos, mais 7.809 do que em 2005, para as Assembleias Municipais obteve 230.737 votos, mais 18.068 do que em 2005, e para as Assembleias de Freguesia conseguiu 163.252 votos, mais 16.354 do que em 2005. Sabendo-se que em 2009 o Bloco concorreu em mais 30 concelhos do que em 2005, estes resultados significam uma derrota para o Bloco de Esquerda, tanto mais que nas Legislativas de 27 de Setembro, 15 dias antes, os resultados tinham sido muito positivos.
Estas eleições foram disputadas num contexto de uma grande bipolarização, principalmente entre o PS e o PSD, bipolarização empolada até à exaustão pela comunicação social. Por outro lado, a manutenção dos presidentes de câmara foi, em muitos casos, determinante. Acresce ainda a falta de meios, a fraca implantação no terreno e as dificuldades no trabalho autárquico por parte do Bloco. Estes são os principais factores que explicam a derrota bloquista.
Os resultados autárquicos do Bloco no Algarve, embora enquadrando-se dentro da tendência dos resultados nacionais, permitiram a conquista de um mandato na vereação de Olhão. Comparativamente a 2005, os representantes eleitos pelo Bloco mais que duplicaram nas Assembleias Municipais (12) e nas Assembleias de Freguesia (14), passando de 12 para 27 (incluindo 2 eleitos no Movimento Democrático Independente, de Vila do Bispo), conseguindo-se mesmo um vereador em Olhão.
Apesar deste acréscimo significativo de representação temos que reconhecer que havia a expectativa de eleger mais vereadores e mais representantes nas AM e AF, dados os resultados conseguidos pelo BE na região tanto nas europeias como nas legislativas, resultados extraordinários da ordem dos 15%.
Analisando um pouco mais criteriosamente os resultados obtidos pelo Bloco nos 10 concelhos algarvios, nas Câmaras e Assembleias Municipais, temos o seguinte:
- Olhão – 9,86% e 12,47% (1 vereador, 2 na assembleia municipal, 2 na assembleia de freguesia de Olhão, 2 na assembleia de freguesia de Pechão e 2 na assembleia de freguesia de Quelfes).
- Portimão – 6,49% e 8,84% (2 na assembleia municipal, 1 na assembleia de freguesia de Portimão e 1 na assembleia de freguesia da Mexilhoeira Grande).
- Silves – 5,88% e 8,26% (1 na assembleia municipal, 1 na assembleia de freguesia de Silves e 1 na assembleia de freguesia de Alcantarilha).
- Lagos – 4,62% e 7,14% (1 na assembleia municipal).
- Lagoa – 4,27% e 5,98% (1 na assembleia municipal, 1 na assembleia de freguesia do Parchal e 1 na assembleia de freguesia de Ferragudo).
- Faro – 3,04% e 6,38% (1 na assembleia municipal e 1 na assembleia de freguesia da Sé).
- Albufeira – 2,98% e 4,77% (1 na assembleia municipal).
- Loulé – 2,90% e 4,72% (1 na assembleia municipal).
- Tavira – 2,88% e 6,13% (1 na assembleia municipal).
- Vila Real de Stº António – 1,86% e 3,69%.
Como se constata, a votação para as assembleias municipais é cerca de 2 a 3% mais elevada do que para as câmaras, verificando-se aqui a opção dos eleitores pelo voto útil. Por outro lado e relativamente a 2005, nos concelhos onde a bipolarização entre o PS e o PSD foi mais acirrada e onde os presidentes são mais populistas e menos desgastados, o Bloco teve mais dificuldades em progredir, aumentando muito pouco a votação, mantendo-a no essencial, ou descendo mesmo. Estão neste caso Tavira, Loulé, Portimão, Faro e Vila Real.
Tendo em conta o panorama nacional, os resultados autárquicos obtidos pelo Bloco de Esquerda em Portimão até são bastante positivos (no contexto de um desaire a nível nacional). Em mais de 150 Câmaras onde o Bloco concorreu, Portimão posiciona-se em 9º lugar, e em 2º lugar no Algarve, a seguir a Olhão, tanto em percentagem como no número de eleitos. Os resultados obtidos na Câmara (6,49%) e na Assembleia Municipal (8,84%), comparativamente a valores conseguidos em cidades com núcleos consolidados, como Faro, Tavira, Vila Real, Loulé, ou Silves, em nada envergonham os bloquistas de Portimão. Passámos a ser a 3ª força no concelho, com 4 representantes eleitos. As outras forças da oposição, nomeadamente a CDU e o PP, tiveram derrotas estrondosas, ao perderem um vereador cada e conseguindo apenas um mandato cada na AM e na AF de Portimão. Apesar de termos ficado aquém dos nossos objectivos, a nossa responsabilidade aumentou e continuamos a ser respeitados. E todos vão continuar muito atentos ao Bloco de Esquerda em Portimão.
A votação no Bloco em Olhão foi uma excepção (um caso atípico), tal como foram excepções Salvaterra, Moita, Entroncamento, Seixal e Almada. Portimão também podia ter sido uma dessas excepções. Tal não sucedeu por um conjunto de factores. Além de se terem verificado alguns erros de campanha – que não foram determinantes para a votação obtida –, as principais causas para a não eleição de um vereador bloquista e de novos autarcas nas assembleias, foram a bipolarização entre o PS e o PSD, o voto útil no PS, uma grande falta de meios e de visibilidade da nossa parte, o boicote local da comunicação social à nossa candidatura, duas campanhas eleitorais quase simultâneas o que prejudicou as autárquicas, a nossa fraca implantação no terreno (é importante que os bloquistas participem nas associações, colectividades e outras estruturas de dinamização popular), e as dificuldades do nosso trabalho autárquico, não a nível do trabalho realizado na Assembleia Municipal e na Assembleia de Freguesia de Portimão, o qual foi muito positivo e do melhor realizado a nível do Algarve, como é nitidamente reconhecido. A grande dificuldade residiu no facto de não termos conseguido divulgar junto da população as nossas iniciativas e propostas autárquicas. No entanto, marcámos presença mais ou menos regular na comunicação social, divulgando as propostas, o que terá sido decisivo para os resultados obtidos – 9º lugar a nível nacional. Ou seja, se não fosse o bom trabalho desenvolvido na AM e a presença mais ou menos constante na comunicação social, muito provavelmente teríamos ficado ao nível da votação obtida em concelhos como Faro, Silves, Tavira ou Vila Real.
Esta última ideia prende-se com outros factores: a grande votação obtida pelo PS em Portimão, cilindrando a oposição, tem a ver com o forte populismo de Manuel da Luz, um presidente tipo bonacheirão e paternalista (veja-se o slogan “o nosso Presidente”), os gastos de campanha dispendidos com out doors, folhetos a cores, brindes, almoços e jantares grátis, uma forte mediatização de Portimão nos últimos tempos, fruto de muitos espectáculos e de algumas obras e investimentos realizados, a Câmara ao serviço da máquina partidária do PS e o reforço exponencial do polvo do clientelismo e do nepotismo, com a criação de mais de uma dezena de empresas municipais e de sociedades anónimas. Manuel da Luz e o PS de Portimão, com a conivência e o beneplácito do PSD e até do CDS/PP (que aprovaram quase todas as propostas estratégicas da maioria PS e muitas das suas figuras acabaram por cair na sua órbita), montaram uma rede clientelar nos últimos dois anos. Até o facto da CDU se ter coligado com o PS na Junta e AF de Portimão só veio beneficiar o PS e a própria CDU pagou bem caro ter embarcado nessa aliança.
Daqui a quatro anos estaremos em melhores condições para disputar as eleições em Portimão. Acima de tudo, há que continuar a desempenhar um bom trabalho nos órgãos autárquicos, contactar e divulgar junto da população e da comunicação social as nossas iniciativas (muito importante), continuar a apostar em temas fortes (Ria de Alvor, temas sociais e ambientais, empresas municipais e S. A.’s, clientelismo e transparência…), denunciar e combater a arrogância e o poder clientelar da maioria PS. Por outro lado, devemos apostar no reforço e na unidade do núcleo (unidade na diversidade, sã convivência e fraternidade) e continuar a juntar forças com independentes e outros amigos e simpatizantes. E no próximo mandato Manuel da Luz já não pode voltar a candidatar-se.
(*) Estas apreciações são de ordem meramente pessoal,
apenas comprometendo o seu autor.
Descobrir o caminho da alternativa socialista de poder

Chegados ao fim de um ciclo eleitoral longo e antecipadamente sabido como muito difícil para o Bloco de Esquerda (BE), é tempo de assumirmos, para dentro e fora do BE, os passos positivos conseguidos e os retrocessos verificados. Será desse debate urgentíssimo que o Bloco vencerá, ou não, as adversidades e as novas perplexidades entretanto colocadas à Esquerda Socialista.
Os ventos foram de feição nas Europeias. O Bloco conseguiu um resultado notável (10,72% dos votos expressos e a eleição de três eurodeputados, à frente, pela primeira vez, da CDU, com 10,64%) e o PS, enquanto partido maioritário do Governo responsável pelo conjunto de políticas mais à Direita dos últimos anos, foi castigado nas urnas (26,53%). PSD e CDS, com 31,71% e 8,36%, respectivamente, estancaram no limite descidas eleitorais que eram previsíveis.
O combate para as Legislativas foi ainda mais difícil. Ainda assim, o Bloco obteve o seu melhor resultado de sempre (mais de meio milhão de votos, correspondentes a 9,82% e à eleição de 16 deputados, uma vez mais à frente da CDU) e o PS perdeu a maioria absoluta (36,55%, com 97 deputados). Surpreendentemente, o CDS afirmou-se como a terceira maior força política nacional (10,43%, 21 deputados).
Finalmente, nas Autárquicas, o BE obtém uma subida, a nível nacional, de cerca de seis mil votos (cresce percentualmente de 2,95% para 3,02%) e elege nove vereadores (contra sete em 2005), e passa a dispor de 139 deputados municipais (eram 114) e de 235 representantes nas Assembleias de Freguesia (eram 229). No entanto, falha claramente as eleições de Luís Fazenda (Lisboa) e de João Teixeira Lopes (Porto). O PS obtém ainda mais votos (mais do que dois milhões) do que nas legislativas (37,66%) e discute taco-a-taco a vitória no todo nacional com o PSD e as coligações feitas com o CDS.
À distância percebe-se que todos estes resultados foram maus para o Bloco. No mínimo, não tão bons como a ideia que tentamos passar. E é preciso assumi-lo. Foram maus nas Europeias porque fomos incapazes de acreditar, em plena campanha, que estávamos à beira de um resultado histórico, como chegaram a indiciar algumas sondagens e estudos de opinião. Foram maus nas Legislativas porque fomos incapazes de travar o avanço da extrema-direita em Portugal. Foram maus nas Autárquicas porque os votos obtidos em 2009 nos situam nos resultados de 2005 e de 2001. É preciso assumir que até mesmo os triunfos parcelares conseguidos têm um sabor amargo. E é preciso assumir um espaço aberto de debate e de reflexão que nos faça perceber qual é, afinal, o caminho a seguir, onde errámos e o que foi decisão acertada. É preciso descobrir o caminho que faça do Bloco parte de uma efectiva alternativa socialista de poder.
1 – Pequeno passo de caracol nas Autárquicas
O Bloco não é, de todo, um partido com expressão nacional. As Autárquicas mostraram-no dolorosamente. E dez anos depois do arranque essa realidade explica-se com a direcção política dada ao movimento, que nunca quis ou nunca foi capaz de conquistar e aprofundar o enraizamento popular.
O Bloco não tem, de facto, implantação autárquica. Enchemos a boca com o Orçamento Participativo, tecemos umas considerações politicamente correctas em torno do conceito e pouco mais. As próprias Jornadas Autárquicas do Bloco não têm sido espaço de aprofundamento de pensamento e de debate, são, de resto, votadas ao desprezo pela direcção política nacional e por alguns cidadãos independentes que, pela segunda eleição consecutiva, até conquistaram, sob a bandeira do Bloco de Esquerda, a dita como única câmara com maioria bloquista. As Jornadas Autárquicas servem, apenas e só, para enviar uns quantos recados mediáticos.
A implantação no terreno, ao nível do poder local, não é fácil, até pelo jogo de influências que as redes partidárias estendem há quase quatro décadas. Mas isso já todos o sabíamos. O que falha, então? Para onde foram mais de metade dos votos obtidos 15 dias antes? Como explicar que mesmo em zonas com trabalho militante desenvolvido há anos não foi possível estancar a sangria? Falha a estratégia de alargamento? Se, em Lisboa, a forma como foi ultrapassado o problema do “Zé” e a forte bipolarização em torno das candidaturas de António Costa e Pedro Santana Lopes poderão, aparentemente, ajudar a explicar a não eleição de Luís Fazenda, já no Porto não há palavras para justificar o desaire de João Teixeira Lopes. E é bom que se sublinhe que estas candidaturas, para efeitos mediáticos e em termos de esforço interno, eram as maiores apostas do Bloco. Mais: o esforço, humano e financeiro, desenvolvido em campanha pelo Bloco foi incomparavelmente superior em 2009, relativamente a 2005. E é preciso ter sempre presente as inúmeras arruadas realizadas em que os aderentes e simpatizantes eram, quase sempre, simples figurantes no cenário pretendido.
Por isso, é preciso não aplaudir o nosso progresso eleitoral nas Autárquicas, um insignificante passo de caracol. Há muito para fazer, de facto. Daniel Oliveira tem razão: “Sem tabus nem estigmatizações ideológicas, com abertura e pluralismo, era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto”.
2 – O efeito “eucalipto” nas três eleições
De comum às três campanhas identifica-se a presença de Francisco Louçã, coordenador da Comissão Política do BE. E não poderia ter sido de outro modo, na lógica mediática que impera há muito na Comissão Política, a actual e as anteriores.
A verdade, porém, é que a omnipresença (a todos os títulos notável e louvável, pela capacidade trabalho, espírito de entrega único e inigualável organização e disponibilidade) de Francisco Louçã também acarreta desvantagens. Se nas Europeias Miguel Portas ainda foi tendo alguma visibilidade (e também, aqui e ali, Marisa Matias, num primeiro plano, e Rui Tavares, num segundo plano), nas Legislativas os candidatos a deputados pelos distritos de todo o país estiveram sempre um passo imediatamente atrás e nas Autárquicas aconteceu o eclipse total.
Ao longo dos anos, o Bloco foi percebendo que para crescer, inclusive eleitoralmente, tinha de jogar algumas das regras burguesas. Uma delas foi o aproveitamento da exposição e do espaço de exposição nos órgãos de Comunicação Social, e o Bloco soube fazê-lo pacientemente. Pacientemente fomos impondo o nosso coordenador na Comunicação Social, servimo-nos dela, a seguir ela tirou partido de nós e com o tempo embriagámo-nos na inevitável autofagia da exposição e acabámos à mercê das agendas da Comunicação Social.
Na prática, a realidade pode ser traduzida do seguinte modo: na Comunicação Social, numa primeira fase, ninguém queria saber do Bloco e de Louçã para nada; lentamente conseguimos impor a sua presença e a Comunicação Social deu-lhe guarida; depois, a Comunicação Social teve de olhar para o lado pitoresco (o “light” e o “engraçado”) do partido e do seu líder para continuar a albergá-los; agora, e para além do efeito “eucalipto” (que seca tudo em seu redor) da presença de Louçã, é a Comunicação Social que “exige” a sua aparição, como se nada mais existisse além dele!
Por outras palavras, em termos de exposição mediática, o Bloco está confinado a Francisco Louçã, no partido não há mais protagonistas à excepção de uns quantos comentaristas/analistas que, agora, por força do resultado nas Legislativas, começam a surgir nos ecrãs de televisão.
Mas será que no Bloco defendemos o culto do líder? Pensamos que estamos nos antípodas, mas escorregámos na casca da banana liberal…
A tradição fundacional do BE reside na sua qualidade de movimento político socialista que consegue realizar no seu seio a convergência de experiências políticas e ideológicas diferentes. O culto da personalidade ou a sujeição às forças mediáticas nada tem a ver com o Bloco, nem contribui para que o BE se afirme como organização com intervenção nacional, regional e local. Às vezes, até parece que a evolução recente do Bloco está condicionada ao que os “media” fazem/dizem/controlam.
3 – Tiques antigos pouco plurais
A constituição das listas para as Legislativas e para as Autárquicas, por outro lado, revelaram a permanência de alguns tiques antigos que julgávamos extintos no Bloco de Esquerda, enquanto força política plural.
É verdade que a vontade das distritais e das concelhias foi, em alguns casos, submetida a interesses nunca assumidos claramente – mas que se traduzem na necessidade por alguns sentida de se constituir um grupo parlamentar pluridisciplinar, face ao então mais do previsível crescimento eleitoral – , ou subjugada a jogos aritméticos (e até familiares!) que pouco (nada!) têm a ver com o Bloco –, no caso das Autárquicas. E como ambos os pressupostos são politicamente pouco significativos, ganhámos um grupo parlamentar que não representa o que as bases desejavam, e não elegemos os autarcas que queríamos, apesar do esforço sobre-humano que muitos deram à(s) respectiva(s) causa(s), em termos de campanha eleitoral.
Saibamos assumir, humildemente, que errámos!
É por isso que o Bloco de Esquerda não deve focar a sua acção na actividade do seu grupo parlamentar, por mais importante e dedicada que ela tenha sido e/ou possa ainda vir a ser. O Bloco tem de partir do local para o nacional, da luta social para a alternativa política. E toda a sua organização tem de estar adaptada a isso mesmo.
O Bloco não pode ter funcionários-candidatos que não têm tempo para fazer campanha porque têm de trabalhar. Tal como as coisas estão, perdemos o candidato e perdemos o funcionário. Nada sobeja. O Bloco não pode sentir a necessidade de elaborar listas de candidatos só e apenas porque é preciso apresentar uma lista. Aliás, nunca por nunca pode o Bloco alinhar a sua agenda de campanha em função da agenda própria da Comunicação Social!
Este tipo de comportamentos estão nos antípodas do que se exige de uma força política que se reclama da Esquerda Socialistas.
4 – A menos que a afirmação do partido seja uma meta em si mesmo…
O voto no Bloco de Esquerda é, ainda e muito, um voto de contrapoder, de protesto activo. Ao assumirmos que lutamos pelo poder, que queremos assumir responsabilidades – nas autarquias e no próprio Governo – temos de aprender a quantificar previamente cada uma das propostas a fazer. A menos que a afirmação do partido-movimento seja uma meta em si mesma, o que parece absolutamente contraditório com o caminho feito nestes últimos dez anos.
O Bloco de Esquerda deve assumir-se cada vez mais como um pólo fomentador de unidade das esquerdas, começando por um trabalho social, cultural e político para uma reorganização do espaço socialista. E para o fazer terá de continuar a abraçar causas justas e fracturantes, quantificando-as a cada momento.
5 – “Bonapartes” acima das posições existentes
Para se obter tal resultado, é necessário começar por dentro.
O Bloco é o resultado de experiências políticas e trajectos ideológicos diferenciados. Não faz sentido que as principais figuras(!) do Bloco não pertençam oficialmente a nenhuma “corrente de opinião” interna e resolvam, sempre que se ensaia algum debate, aparecer como uma espécie de “bonapartes” que se posicionam acima das posições existentes… Na realidade e na prática, esses dirigentes acabam por fazer perdurar o domínio do Bloco por uma “troika” de fundadores que, há muito, já devia ter dado o lugar à dinâmica democrática dos militantes, da base até ao topo.
Os aderentes do Bloco já mostraram ser exigentes e críticos. E os eleitores do Bloco também. Daí que o eleitorado se “zangue” quando o BE se apresenta como intérprete único, rigoroso e fiel do que os cidadãos pretendem, e que o Bloco tenha dificuldade em entender. Como se conhecêssemos, de antemão, e de trás para diante, as dificuldades, as aspirações e as exigências dos cidadãos, não necessitando, sequer, de qualquer diálogo com alguém.
6 – Ratificar o decidido
Entram neste capítulo as correntes de opinião, as “formiguinhas” de Daniel Oliveira. Sistematicamente, a direcção política do Bloco ignora (e até ostraciza) camaradas que, ao longo dos anos, têm apresentado propostas alternativas. E fá-lo conscientemente.
O debate sobre questões políticas fundamentais raramente é feito nos órgãos estatutariamente eleitos como direcção política nacional, e quando é promovido veste, apenas para o efeito, as roupagens da democracia.
É por isso que militantes, simpatizantes e apoiantes que não são oriundos nem se revêem em nenhuma das correntes existentes do Bloco, oficiais ou não, têm muita dificuldade em perceber o que acontece no “interior” do partido-movimento, independentemente de estarem, muitas vezes, de acordo com as decisões tomadas. Por um lado, não participam. E quando são chamados a participar, muitas vezes, ratificam o que está decidido.
7 – Dinamização das estruturas locais a partir do confronto democrático
É vital a dinamização das estruturas locais do BE – distritais, concelhias e até de freguesia (se possível) – a partir do confronto democrático entre posições políticas internas diferentes, com a discussão de programas de acção, adaptados a cada área geográfica de intervenção.
Com pelo menos dois anos aparentemente tranquilos pela frente, o Bloco tem todas as condições para fazer esse caminho sem sobressaltos. As estruturais locais não podem continuar fechadas sobre si mesmas. Pelo contrário, têm de assumir responsabilidades pelo trabalho desenvolvido, apresentar propostas alternativas concretas e dinamizar a acção de curto e médio prazo juntamente com os seus aderentes e apoiantes. As estruturas e os seus militantes, desprovidos de quaisquer receios de conotação com a corrente A, ou com a tendência B.
O Bloco de Esquerda tem vindo a defender publicamente novas formas de participação dos cidadãos em defesa dos seus interesses. É absolutamente indispensável instituir, no interior do Bloco, as práticas democráticas que defendemos publicamente, numa clara atitude ética.
A este propósito, o texto de opinião assinado por Rui Tavares, publicado no jornal “Público” de 14 de Outubro deste ano, é claro e explícito quanto ao caminho a seguir:
Nas próximas eleições locais, entre os 305 presidentes de câmara, metade não poderá recandidatar-se. O país deveria aproveitar para iniciar uma autêntica revolução no poder local, feita de um novo discurso urbano e de uma nova prática cívica. A preparação dela começa agora.
Um novo discurso urbano começa por duas dimensões aparentemente simples: onde as pessoas moram e como elas se movem. Mas as suas ramificações têm consequências enormes. Num tempo de crise, é comum falar-se dos efeitos "multiplicadores" do investimento público. É bom lembrar que, em política urbana, os multiplicadores vão muito para além da economia. É investimento público que gera novo investimento, é certo, mas igualmente importantes são os seus multiplicadores culturais e sociais. Em cidades com centros degradados com as nossas, são também multiplicadores de qualidade de vida. Em cidades dominadas pelo automóvel, as políticas de transportes públicos são também multiplicadores ambientais. E promover a participação política local é talvez um dos mais poderosos multiplicadores cívicos.
Aqui entra o segundo plano. Uma nova prática cívica significa promover mais debate local, ter mais abertura, criar mais momentos de deliberação. As pessoas podem não saber tudo sobre macroeconomia ou direito internacional, mas em geral têm uma ideia muito concreta de como querem mudar a sua vida na cidade. Ao discuti-lo não só preparam o caminho para essa mudança como melhoram a qualidade da democracia.
8 – Alternativa interna
É neste quadro que a Esquerda Nova – Corrente de Opinião no Bloco de Esquerda se assume como uma alternativa interna para que o Bloco de Esquerda se torne, cada vez mais, um partido-movimento de convergência à esquerda, de programa e propostas da Esquerda Socialista, vocacionado para a intervenção nas lutas sociais, na intervenção local, regional e nacional. É por isso que a Esquerda Nova se compromete a apresentar em Mesa Nacional um programa de acção que inclua a capacidade de intervenção em todos os níveis da organização bloquista.
19 de Outubro de 2009


