(…)
Pode
pensar-se, e é o meu caso, que é uma patologia da maioria absoluta.
(…)
Mas há
mais do que isso, pois esta longa agonia cava trincheiras, desgasta a vida
democrática, desautoriza o debate político, desvaloriza as formas de controlo,
bloqueia alternativas.
(…)
Há
governantes que se comportam como crianças no recreio.
(…)
E a
direita limita-se a discutir a forma de aproximação à extrema-direita.
(…)
Quanto
menos vale o episódio, mais dramática se anuncia a conclusão final deste jogo.
(…)
A isto
se chamou um dia “pântano”.
(…)
O
pântano tornou-se a forma de governar da maioria absoluta, que nem sabe nem
quer sair disto.
(…)
António
Costa, como já se percebeu, é o padrinho do populismo e está orgulhoso do seu
papel.
(…)
Que
Galamba tenha entretido o país com o folclore de agressões, sequestros, ameaças
à segurança nacional e outras farsas, ainda vá, é o mundo que ele compreende.
(…)
Quando
o chefe do Governo justifica uma crise, que deu demissão do ministro, com
acusações a um adjunto, desce a um patamar em que nunca pensei ver alguém com a
sua responsabilidade.
(…)
O
ministro [Galamba] ainda assim se demitiu para fingir e o primeiro-ministro
resgatou-o heroicamente, chamando a isto “consciência”.
(…)
O
ponto a que se baixou, como se o povo fosse estúpido e não percebesse o insulto.
(…)
A
mentira de Galamba foi uma coisa quase trivial, no ponto em que as coisas estão.
(…)
É tudo
telenovela, não é?
(…)
O que
ficámos a saber, ninguém se esqueça, é que Galamba é o homem escolhido para
privatizar a TAP e para isso fica.
(…)
A
questão, na minha opinião, é que a mentira é tolerada como um exercício do
poder.
(…)
O
exemplo mais grave foi o documento com contas falsificadas que a ministra da
Segurança Social enviou ao Parlamento em setembro.
(…)
Foi o
suporte para uma operação de atemorização de milhões de pensionistas.
(…)
A
mentira [apoiada pelo primeiro-ministro] durou três semanas, o Governo entregou
depois contas verdadeiras.
Francisco Louçã, “Expresso” Economia (sem link)
Quando
falo do fim do trabalho aos meus alunos, eles ficam perplexos, como se nunca
tivessem ouvido falar de tal coisa.
(…)
O trabalho tem ainda um valor quase sagrado, um valor moral
manifesto.
(…)
Aquele
que não trabalha é um preguiçoso, um malandro, um parasita da sociedade. E,
como é sabido, só os pobrezinhos que se sacrificam irão para o Céu.
(…)
Somos todos muito mais do que o nosso trabalho.
(…)
(…)
Falamos em ser e não em fazer, porque o trabalho é vivido
como uma identidade.
(…)
Fazer
o que se gosta não é trabalho. Cuidar da casa, de filhos, de netos, de
familiares doentes não é trabalho.
(…)
Este trabalho é desvalorizado, invisível, não remunerado e,
no entanto, é fulcral para a nossa sociedade.
(…)
À direita o valor moral do trabalho é um clássico.
(…)
À esquerda encontramos uma quase fetichização da figura do
trabalhador enquanto identidade.
Luísa Semedo, “Público” (sem link)
António Costa surpreendeu o país com a decisão de não aceitar
a demissão de João Galamba.
(…)
Em vez
de ceder às exigências de Marcelo Rebelo de Sousa, da generalidade dos
comentadores, dos restantes partidos e da opinião pública, que apontavam para a
queda do ministro das Infraestruturas, Costa não foi por aí.
(…)
Na decisão de António Costa estava indiscutivelmente contido
um desafio a Marcelo Rebelo de Sousa.
(…)
Diz-se que foi uma encenação e boas razões haveria para ter
sido.
(…)
A autoridade e o poder de Marcelo foram postos em causa e
essa foi a leitura que o país fez.
(…)
Claro
que o grande impacto que a decisão do primeiro-ministro teve prende-se com o
facto de todos termos acreditado que Marcelo era capaz de o fazer [diga-se,
dissolver o Parlamento].
(…)
O líder do PSD acusou
António Costa de querer provocar eleições antecipadas.
(…)
É que
quem deveria querer provocar eleições antecipadas é Luís Montenegro e esse
deveria ser o propósito da oposição perante um Governo com maioria absoluta
que, segundo clama, não serve para o país.
(…)
Mas mais extraordinário ainda é denunciar e acusar Costa de
querer aquilo que ele mesmo deveria querer.
(…)
Montenegro está convencido que, num cenário de eleições
antecipadas, o PSD perderá novamente.
(…)
A
direita está numa posição delicadíssima. Contesta, critica, opõe-se e exige,
mas tem medo de ir a eleições. Isto tem consequências.
(…)
No que depender do PSD este Governo tem uma autêntica carta
branca para prosseguir com ou sem trapalhadas.
(…)
Estas declarações de Luís Montenegro fazem perceber um pouco
melhor porque António Costa se atreveu a tanto.
(…)
Resta à direita inventar razões para não exigir a Marcelo que
dissolva a Assembleia da República.
Carmo Afonso, “Público” (sem link)
Se os poderes presidenciais não são
matéria da qual Marcelo abdique, resulta também evidente que Belém vive num
contexto de mãos atadas.
(…)
A responsabilidade de João Galamba
terá de ser medida pelo seu grau de franqueza, pela medida da sua
irascibilidade e pela inquestionável falta de comprometimento institucional que
revelou
(…)
O que se passou na inenarrável
conferência de imprensa de Galamba diz respeito à incapacidade de dezenas de
assessores conseguirem assessorar um ministro que não revelou preparação para
ouvir e ser, de facto, ministro.
(…)
Há um ajuste de contas à ilharga entre PR
e PM e nada será como dantes.
(…)
É sintomático que Marcelo não sinta Luís
Montenegro como uma alternativa e que Montenegro não clame por eleições.
A
Faculdade onde leciono assistiu, a partir de 2017, à chegada de um número muito
elevado de estudantes provenientes dos Países Africanos de Língua Oficial
Portuguesa (PALOP).
(…)
De início, esta situação gerou, entre os docentes, uma onda
de entusiasmo.
(…)
Porém, à medida que as semanas avançavam, os motivos de
preocupação foram-se adensando.
(…)
Findo o 1.º semestre, a reprovação e o abandono atingiram
níveis inéditos, fortemente humilhantes para os próprios.
(…)
Tornou-se
evidente que a criação de contingentes especiais, cuja existência amplamente
defendemos, teria de ser complementada com medidas robustas de inclusão.
(…)
A
grande maioria não utilizou o português ao longo da vida. Comunicou, consoante
os casos, nas suas línguas locais ou em crioulo.
(…)
Não
ponho outra hipótese senão a de que se avançará, já no início do próximo ano
letivo, com um plano orientado para a compensação dos problemas dos estudantes
dos PALOP, em especial dos provenientes da Guiné.
Miguel Chaves, “Público” (sem link)
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