(…)
De facto, estas empresas exploram os dados comportamentais dos
utilizadores e oferecem-lhes um simulacro de vida.
(…)
Desse modo, elas são governo do mundo, jamais alguma empresa teve
tanto poder sobre os seus clientes.
(…)
Em 2015, foi descoberto que quem visitasse os 100 sítios mais
populares importaria seis mil cookies para o seu computador, quase todos sem
relação com a pesquisa e 92% dos quais enviando dados para a Google.
(…)
Há em toda esta transfiguração do poder digital uma figura ímpar
que merece destaque nesta secção de economia. É um brilhante académico, Hal
Varian, professor da Universidade da Califórnia, que foi contratado em 2002
para economista chefe da Google.
(…)
A história [das Aventuras de Robinson Crusoe] é uma alegoria ao
poder absoluto (e curiosamente também à liberdade religiosa).
(…)
[Hal Varian] apresentou Crusoe como o modelo do “mercado de um
homem só”.
(…)
[A tarefa de Hal Varian é] fazer acreditar a toda a gente que é
Crusoe e vender-lhes a publicidade que a Google gere.
(…)
O exemplo favorito de Varian era que os serviços da empresa
permitissem a uma seguradora desligar o motor de um automóvel se o pagamento do
seguro estivesse atrasado.
(…)
Resultou, é hoje a maior empresa de publicidade digital do planeta
e há quase 20 anos que Varian é o seu profeta.
(…)
Cada pessoa será uma ilha, como no universo maravilhoso de Crusoe,
embora não viva isolada, pois é mapeada pela empresa que datifica o mercado.
(…)
O pesadelo de saber tudo sobre toda a gente é um grande objetivo
comercial.
(…)
Esta é uma realidade que a história do
capitalismo moderno nunca conhecera até hoje.
Francisco Louçã,
“Expresso” Economia (sem link)
Ser mãe isolada, com um só salário, não
ter a boa cor de pele atira muitas pessoas para a rua, mas também para tetos
que não são casas.
(…)
[Há] situações onde o teto não é uma
casa, porque é um lugar tóxico, como no caso de jovens LGBTI+ que ou são
maltratados ou não ousam dizer quem são, com medo de perder o teto e de não
encontrar casa.
(…)
Estes lugares tóxicos assemelham-se aos
das mulheres vítimas de violência que, por não terem condições para ter casa,
permanecem no mesmo teto que o agressor.
(…)
Quando
oiço falar de Mais Habitação, penso: “Mais” não chega, é preciso melhor.
(…)
[Há casos
em que o realojamento de pessoas para um novo bairro social se fez para] habitações
que continuaram a ser tetos, mas que, aos poucos, se foram tornando menos
“casa”.
Luísa Semedo, “Público” (sem link)
No
balanço dinâmico entre estar atento ou participativo, Marcelo defende a
primeira e pratica a segunda.
(…)
[A “crise”
Galamba] significava o fim da cronologia de coabitação que se foi mantendo
entre Belém e São Bento.
(…)
Era a
incapacidade da Oposição para se erguer como alternativa que fazia Marcelo e
Costa esperarem por melhores dias de guerra.
(…)
O veto ao
diploma Mais Habitação e a forma indiferente como esse mesmo veto é recebido em
Conselho de Ministros traçam uma ode à indiferença.
(…)
[Marcelo]
está disposto a ultrapassar pela direita os deveres de equilíbrio que defende e
diz proteger.
(…)
Mal vai o
regime quando os dois maiores protagonistas políticos da legislatura praticam
esta leitura de desrespeito sobre a dimensão pública e institucional dos cargos
que juraram proteger e elevar.
Entre os
participantes na reunião plenária do Conselho de Estado está a pessoa que
violou o sigilo.
(…)
A gravidade
desta violação é enorme. O carácter não público das reuniões está na
Constituição.
(…)
Estamos a
falar de aconselhamento ao Presidente da República e pronúncia sobre temas
fundamentais da vida democrática.
(…)
Uma fuga de informação tem
necessariamente implicações no funcionamento futuro do Conselho de Estado, ou
seja, os conselheiros terão presente que o que se passar ali poderá vir cá para
fora.
(…)
Há aqui
uma evidente degradação de princípios que estão defendidos ao mais alto nível.
(…)
É dado a ver aos portugueses que
personalidades com responsabilidades políticas e institucionais não estão à
altura do compromisso que assumiram e desonram as suas funções.
(…)
E claro
que existem dois temas aqui: a fuga de informação e o significado do silêncio
de António Costa.
(…)
[Luís Montenegro] fez do silêncio de
António Costa um tema central nas suas intervenções, ignorando que soube desse
silêncio porque alguém incumpriu um dever fundamental.
(…)
Não há
melhor concretização de falta de sentido institucional que comentar informações
que não deveriam ter sido reveladas.
(…)
Mas
Marcelo Rebelo de Sousa não andou melhor. Desde logo, não criticou a
fuga de informação e sobretudo atirou-se a
comentar o silêncio de António Costa.
(…)
Alguém
quis criar uma intriga política e não olhou a meios para o conseguir. E pior:
foi muito bem-sucedido.
Carmo Afonso, “Público” (sem link)
Tom Morello foi convidado para as
comemorações oficiais dos 50 anos do golpe de Pinochet no Chile, que se
assinalam na segunda-feira.
(…)
O
guitarrista dos Rage Against the Machine (RATM) e dos Audioslave é um activista
(…) que sempre assumiu a música como uma questão política.
(…)
Armado com “as ideias da solidariedade,
igualdade, luta pela justiça e o antifascismo”, Morello e os RATM construíram
uma carreira de desafio ao capitalismo e ao neoliberalismo, contra o racismo.
(…)
[Nos
últimos 30 anos], os RATM [terão sido] muito bons na passagem subliminar das
suas mensagens [políticas].
(…)
Cinquenta
anos depois, o Chile do presente continua extremamente marcado pelo passado,
pelos acontecimentos de 11 de Setembro de 1973.
(…)
O Chile
foi o seu [do mais puro neoliberalismo] laboratório na terra, com o beneplácito
do ditador e milhões de cobaias à disposição.
(…)
E é nesse contexto que surge Dirty Wars:
11 de Septiembre, um jogo de vídeo agora lançado para chegar a tempo da data
redonda dos 50 anos.
(…)
[Trata-se de] um jogo stealth que
demorou seis anos a ser desenvolvido e que pretende “mostrar o contexto daquele
tempo”: um tempo em que os espectros invadiram a luz do dia para enterrar a
sociedade mais justa que Salvador Allende não teve tempo de construir.
António Rodrigues, “Público” (sem link)
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