quinta-feira, 18 de abril de 2019

A EXTREMA DIREITA DE HOJE DISFARÇOU-SE DURANTE MUITOS ANOS


A extrema-direita que agora deita as garras de fora por todo o mundo não nasceu do nada. A crónica que o historiador Manuel Loff assina hoje no “Público” vem exactamente demonstrar, através de exemplos da história recente que “os neofascistas do final do século XX e os racistas disfarçados de culturalistas nunca estiveram sozinhos”…
De leitura fácil, vale a pena ler o interessante texto que retirámos do “Público” desta quinta-feira.

Ainda há poucos anos, sobre o avanço visível da extrema-direita por toda a Europa e as Américas (e Israel, claro), dizia-se que era coisa passageira de que era melhor não falar para não lhes dar importância. Achava-se que eram movimentos muito minoritários, raramente elegiam deputados e, quando o faziam, eram perfeitamente prescindíveis na constituição de maiorias de governo apesar de, já então, irem contaminando o discurso das direitas clássicas e marcando a agenda dos media. Depois de terem aproveitado a onda anticomunista do final do século XX para ocupar um espaço enorme no mapa político da Europa centro-oriental, transformaram o fim dos regimes que se reivindicavam comunistas numa oportunidade histórica para fazer uma crítica demolidora da democracia mais ou menos redistributiva para a qual o Ocidente capitalista fora obrigado a evoluir com o triunfo do antifascismo em 1945 e do movimento descolonizador ao longo dos vinte anos seguintes, ambos abrindo caminho à emancipação (sempre incompleta e ameaçada) das mulheres e das minorias étnicas e de orientação sexual. Os neofascistas do final do séc. XX e os racistas disfarçados de culturalistas (como se o problema para eles não estivesse na “raça” mas na “incompatibilidade cultural”) nunca estiveram sozinhos: a onda neoconservadora de Thatcher, Reagan e Kohl partilhava com eles a mesma leitura horrorizada do avanço das ideias socialistas na universalização da educação, da saúde e da segurança social pública que faziam social o chamado Estado de Bem Estar. Como a extrema-direita, também Thatcher achava que a desigualdade de classes, ou o próprio conceito de sociedade, eram puras mistificações marxistas; para ela, para Reagan e para a extrema-direita, o que havia era a Nação e os seus inimigos internos (nome que Thatcher deu aos mineiros da longa greve de 1984-85), era o Ocidente com o dever histórico de recuperar a sua supremacia. Sobre a Grã-Bretanha desses anos fazia-se a mesma pergunta que recentemente se fazia sobre Portugal e Espanha: porque razão não tinha ela uma forte Frente Nacional como a França? A resposta era simples (e é a mesma que deve ser dada sobre os casos ibéricos): porque ela estava dentro da direita tradicional, era thatcherista. Enquanto a enésima crise financeira do capitalismo internacional não desvertebrou os sistemas de representação do Ocidente, a extrema-direita não achou ser útil autonomizar-se. Quando o fez, de onde saíram todos os seus dirigentes? Dos partidos da direita tradicional – deixando lá dentro, como se vê bem, muitos aliados potenciais com os quais partilham ideias e políticas.
Salvo raras exceções, esta é a origem das direitas radicais dos últimos 25 anos: verificando que o estado de crise e guerra permanente em que o Ocidente passou a viver propicia um regresso a uma cosmovisão de medo do outro e de medo da perda, elas, que se haviam mantido ativas contra todas as mudanças do pós-1945 (direitos cívicos e sociais, descolonização, feminismo), acolhidas sempre no interior dos partidos das direitas de governo em todo o Ocidente, preferiram autonomizar-se e, a partir de fora, marcar o passo dos seus antigos correligionários. Desde Berlusconi, em 1994, até Trump e Bolsonaro, as direitas clássicas não hesitaram nos últimos 25 anos em se coligar com elas. E sempre que disseram que o não queriam fazer, roubaram-lhes o discurso – isto é, radicalizaram-se. Nos anos 30, a isto chamou-se outra coisa: fascizaram-se.
É o que está a suceder em Espanha: perdido na miríade de movimentos neofranquistas que sempre existiram desde a morte de Franco, o Vox, criado por dissidentes do PP, com forte presença de militares e de polícias (modelo que o Chega quer imitar em Portugal), passou de coisa pateticamente minúscula (0,2% nas eleições de 2016) a aliado de governo do PP e dos Ciudadanos na maior região de Espanha, a Andaluzia. Com as sondagens a darem-lhe agora mais de 10% dos votos, a direita clássica só com ele regressará ao poder. Para facilitar, fala como eles. Se o Vox quer acabar com as políticas de luta contra a violência de género “porque são discriminatórias”, o PP quer revogar o aborto. Para regressar a 1936 e ouvir a retórica nauseabunda da “Espanha partida” ou da equiparação dos presos políticos catalães a “terroristas”, não é preciso ouvir um neofascista do Vox: basta ouvir o PP ou os Ciudadanos.
A pergunta ingénua de porque não havia uma extrema-direita organizada em Portugal e em Espanha passou a ter a resposta óbvia. E sinistra.

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