(…)
[Lula
ganhou as eleições] pelo temor que o desastre pandémico, a arrogância
militarizada e a boçalidade do adversário criaram entre pessoas das mais
sofridas do país.
(…)
[Lula]
foi eleito pelo desespero perante a selvajaria bolsonarista e para evitar que o
país continuasse a afundar-se.
(…)
A
esperança de uma viragem progressista é curta e, aliás, o que disso houver vai
ser depressa atenuado pelas composições das alianças de governo e pelo negócio
orçamental com os coronéis das amibas políticas que dominam o parlamento, o
“centrão”.
(…)
Maioritário
entre os homens brancos e entre os de maiores rendimentos — exatamente o
padrão Trump —, Bolsonaro obteve a sua maior votação de sempre.
(…)
[Bolsonaro
foi derrotado] porque nunca nenhum candidato recebeu tantos votos quantos os de
Lula.
(…)
A
direita de hoje tem motivos para recear o risco eleitoral de uma polarização
democrática, mas festeja o sucesso fulgurante da sua recomposição.
(…)
[Estamos
perante o] movimento identitário mais poderoso do século XXI: a redescoberta do
fanatismo religioso como a voz da política.
(…)
[Os
bufões] fazem-se adorar como a reencarnação da fúria divina e têm multidões a
segui-los.
(…)
É o
regresso do reprimido, a mais antiga das estratégias de dominação, o terror que
cria cumplicidade das vítimas.
Francisco Louçã, “Expresso” Economia (sem link)
O
Brasil é dos países que tem capacidade excedentária na produção de bens
alimentares.
(…)
Pode,
portanto, dar passos importantes no sentido daquela promessa [de Lula].
(…)
Segundo
o Programa Alimentar Mundial da ONU, 828 milhões de pessoas, mais de um décimo
da Humanidade, vai dormir cada noite com fome.
(…)
Cerca
de 45 milhões, segundo a mesma organização, estão a morrer de fome.
(…)
E o
que a comunidade internacional faz para responder a este problema é ocultá-lo.
(…)
A fome
está a destruir uma parte do mundo.
(…)
Há
três razões que agravam esta regra da fome: a crise climática, as guerras e a
desigualdade que organiza a produção alimentar.
(…)
Um
desses motores da fome instalou-se na Europa, com a invasão russa da Ucrânia, e
tem impacto no mundo inteiro.
Francisco Louçã, “Expresso” Economia (sem link)
O futuro do Brasil é incerto, mas
dificilmente será pior do que o passado recente destes últimos quatro anos que
provocaram uma espécie de lobotomia evangélica a uma pequena parte, ainda
assim, dos 58 milhões de votantes em Jair Bolsonaro.
(…)
Em causa, está o negacionismo eleitoral,
a loucura indómita pelas "fake news" e o apelo à intervenção militar,
nas ruas e nas redes sociais, algo que nem Bolsonaro foi capaz de fazer no
pós-eleições.
(…)
Apesar de ter criado um monstro, Bolsonaro
sabe que agora só o pode alimentar com os restos da sua democracia.
(…)
A segunda volta das eleições brasileiras
confirmou que o voto escondido em Bolsonaro continua a valer cerca de 4% acima
das sondagens.
(…)
Lula presidente, pela primeira e histórica
vez, para um terceiro mandato.
(…)
[Steve Bannon, conselheiro e ideólogo de
Trump e da "alt right" americana defendeu] que Bolsonaro não devia
aceitar os resultados eleitorais.
(…)
A democracia brasileira não tem os
travões antidemocráticos do sistema norte-americano e ainda está refém de parte
de uma elite racista, xenófoba e herdeira dos privilégios coloniais e
esclavagistas.
(…)
O caminho de Lula será o de reconciliar o
país, combater a pobreza, restaurar a credibilidade do Brasil no Mundo.
(…)
[Viu-se que o mundo está com a democracia
brasileira] independentemente dos campos ideológicos, no primeiro dia deste
novo amanhecer brasileiro.
Ainda
estou para aqui em desassossego a digerir a peça de teatro Catarina ou a beleza de
matar fascistas, escrita e encenada por Tiago Rodrigues, que
tive a oportunidade de ver aqui há dias em Paris.
(…)
Enquanto
emigrante sou costumeira do amargo sentimento de frustração de não poder
assistir a eventos culturais portugueses que infelizmente não saem do nosso pequeno
retângulo “à beira-mar plantado”.
(…)
Faz
todo o sentido mostrar também este espetáculo em países que estão neste momento
a viver no presente o que a peça apresenta enquanto futuro, como o Brasil ou a Itália.
(…)
[O que fazer] com quem quer destruir a
democracia e se ataca toda a sociedade, tendo como alvos de estimação as
minorias em número e/ou de acesso ao poder, como as mulheres.
(…)
Apesar
do título provocatório, criticado de forma violenta muitas vezes por quem ainda
nem tinha visto a peça, Tiago Rodrigues obriga-nos a pensar, a abalar certezas,
a tomar posição.
(…)
Mas esta peça tem todos os ingredientes para se tornar num
clássico.
(…)
Alguns
[dos meus alunos] que pensam que numa ditadura as coisas são “mais simples e
estáveis”, até lhes perguntar se aceitariam que o ditador os impedisse de ir à
escola e mudarem de ideias.
(…)
Alguns que já dizem, aos 17 e 18 anos, que votar não serve
para nada.
(…)
Pensei (…) na impressão estranha de ver a realidade tão
autêntica e presente já transformada em obra artística.
(…)
E eis
que uma ficção exibe de forma tão rigorosa e justa aquelas que têm sido, a
nível político, a nossas maiores preocupações, os nossos maiores medos.
(…)
Na
peça, tal como na vida parecemos estar reduzidos a ser espectadores e, por mais
que tentemos fazer algo através da nossa voz, na escrita, nas urnas ou na rua,
perdura este sentimento de impotência pura.
(…)
Já deu
para perceber que o(s) fascismo(s) estão aqui para ficar, foram várias vezes
derrotados, mas como pugilistas despeitados renascem das aparentes cinzas para
proceder à vingança.
(…)
É, entre outros elementos, o ódio e a voracidade do poder que
os conserva e anima.
(…)
As regras implícitas e explícitas da democracia não são para
cumprir. São um obstáculo, mas também uma oportunidade.
(…)
Utilizar
a democracia para poder chegar ao poder e depois contorná-la para ao comando
ficar agarrado. Eis a fórmula (quase) mágica.
(…)
Os líderes fascistas não estão sozinhos, contam com o apoio
convicto de quem neles vota.
(…)
O mais
urgente não é, portanto, responder à pergunta “como eliminar fascistas”, mas
como torná-los inexistentes politicamente, como fazer com que as suas ideias
não tenham qualquer tipo de adesão e se apresentem de forma nítida como
perigosas para o edifício frágil da democracia.
(…)
Precisamos ainda de insistir na cidadania, na justiça e
educação, de resgatar a relação com o Outro.
Luísa Semedo, “Público” (sem link)
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