sexta-feira, 4 de novembro de 2022

CITAÇÕES

 
[No discurso da vitória Lula voltou a] que cada pessoa tome um pequeno-almoço, um almoço e um jantar, deixando de viver sob a tormenta diária da fome.

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[Lula ganhou as eleições] pelo temor que o desastre pandémico, a arrogância militarizada e a boçalidade do adversário criaram entre pessoas das mais sofridas do país. 

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[Lula] foi eleito pelo desespero perante a selvajaria bolsonarista e para evitar que o país continuasse a afundar-se. 

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A esperança de uma viragem progressista é curta e, aliás, o que disso houver vai ser depressa atenuado pelas composições das alianças de governo e pelo negócio orçamental com os coronéis das amibas políticas que dominam o parlamento, o “centrão”.

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Maioritário entre os homens brancos e entre os de maio­res rendimentos — exatamente o padrão Trump —, Bolsonaro obteve a sua maior votação de sempre.

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[Bolsonaro foi derrotado] porque nunca nenhum candidato recebeu tantos votos quantos os de Lula.

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A direita de hoje tem motivos para recear o risco eleitoral de uma polarização democrática, mas festeja o sucesso fulgurante da sua recomposição.

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[Estamos perante o] movimento identitário mais poderoso do século XXI: a redescoberta do fanatismo religioso como a voz da política. 

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[Os bufões] fazem-se adorar como a reencarnação da fúria divina e têm multidões a segui-los. 

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É o regresso do reprimido, a mais antiga das estratégias de dominação, o terror que cria cumplicidade das vítimas.

Francisco Louçã, “Expresso” Economia (sem link)

 

O Brasil é dos países que tem capacidade excedentária na produção de bens alimentares.

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Pode, portanto, dar passos importantes no sentido daquela promessa [de Lula].

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Segundo o Programa Alimentar Mundial da ONU, 828 milhões de pessoas, mais de um décimo da Humanidade, vai dormir cada noite com fome.

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Cerca de 45 milhões, segundo a mesma organização, estão a morrer de fome.

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E o que a comunidade internacional faz para responder a este problema é ocultá-lo.

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A fome está a destruir uma parte do mundo.

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Há três razões que agravam esta regra da fome: a crise climática, as guerras e a desigualdade que organiza a produção alimentar. 

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Um desses motores da fome instalou-se na Europa, com a invasão russa da Ucrânia, e tem impacto no mundo inteiro.

Francisco Louçã, “Expresso” Economia (sem link)

 

O futuro do Brasil é incerto, mas dificilmente será pior do que o passado recente destes últimos quatro anos que provocaram uma espécie de lobotomia evangélica a uma pequena parte, ainda assim, dos 58 milhões de votantes em Jair Bolsonaro.

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Em causa, está o negacionismo eleitoral, a loucura indómita pelas "fake news" e o apelo à intervenção militar, nas ruas e nas redes sociais, algo que nem Bolsonaro foi capaz de fazer no pós-eleições.

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Apesar de ter criado um monstro, Bolsonaro sabe que agora só o pode alimentar com os restos da sua democracia.

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A segunda volta das eleições brasileiras confirmou que o voto escondido em Bolsonaro continua a valer cerca de 4% acima das sondagens.

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Lula presidente, pela primeira e histórica vez, para um terceiro mandato.

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[Steve Bannon, conselheiro e ideólogo de Trump e da "alt right" americana defendeu] que Bolsonaro não devia aceitar os resultados eleitorais.

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A democracia brasileira não tem os travões antidemocráticos do sistema norte-americano e ainda está refém de parte de uma elite racista, xenófoba e herdeira dos privilégios coloniais e esclavagistas.

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O caminho de Lula será o de reconciliar o país, combater a pobreza, restaurar a credibilidade do Brasil no Mundo.

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[Viu-se que o mundo está com a democracia brasileira] independentemente dos campos ideológicos, no primeiro dia deste novo amanhecer brasileiro.

Miguel Guedes, JN

 

Ainda estou para aqui em desassossego a digerir a peça de teatro Catarina ou a beleza de matar fascistas, escrita e encenada por Tiago Rodrigues, que tive a oportunidade de ver aqui há dias em Paris.

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Enquanto emigrante sou costumeira do amargo sentimento de frustração de não poder assistir a eventos culturais portugueses que infelizmente não saem do nosso pequeno retângulo “à beira-mar plantado”.

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Faz todo o sentido mostrar também este espetáculo em países que estão neste momento a viver no presente o que a peça apresenta enquanto futuro, como o Brasil ou a Itália.

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[O que fazer] com quem quer destruir a democracia e se ataca toda a sociedade, tendo como alvos de estimação as minorias em número e/ou de acesso ao poder, como as mulheres.

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Apesar do título provocatório, criticado de forma violenta muitas vezes por quem ainda nem tinha visto a peça, Tiago Rodrigues obriga-nos a pensar, a abalar certezas, a tomar posição.

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Mas esta peça tem todos os ingredientes para se tornar num clássico.

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Alguns [dos meus alunos] que pensam que numa ditadura as coisas são “mais simples e estáveis”, até lhes perguntar se aceitariam que o ditador os impedisse de ir à escola e mudarem de ideias.

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Alguns que já dizem, aos 17 e 18 anos, que votar não serve para nada.

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Pensei (…) na impressão estranha de ver a realidade tão autêntica e presente já transformada em obra artística.

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E eis que uma ficção exibe de forma tão rigorosa e justa aquelas que têm sido, a nível político, a nossas maiores preocupações, os nossos maiores medos.

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Na peça, tal como na vida parecemos estar reduzidos a ser espectadores e, por mais que tentemos fazer algo através da nossa voz, na escrita, nas urnas ou na rua, perdura este sentimento de impotência pura.

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Já deu para perceber que o(s) fascismo(s) estão aqui para ficar, foram várias vezes derrotados, mas como pugilistas despeitados renascem das aparentes cinzas para proceder à vingança.

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É, entre outros elementos, o ódio e a voracidade do poder que os conserva e anima.

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As regras implícitas e explícitas da democracia não são para cumprir. São um obstáculo, mas também uma oportunidade.

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Utilizar a democracia para poder chegar ao poder e depois contorná-la para ao comando ficar agarrado. Eis a fórmula (quase) mágica.

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Os líderes fascistas não estão sozinhos, contam com o apoio convicto de quem neles vota.

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O mais urgente não é, portanto, responder à pergunta “como eliminar fascistas”, mas como torná-los inexistentes politicamente, como fazer com que as suas ideias não tenham qualquer tipo de adesão e se apresentem de forma nítida como perigosas para o edifício frágil da democracia.

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Precisamos ainda de insistir na cidadania, na justiça e educação, de resgatar a relação com o Outro.

Luísa Semedo, “Público” (sem link)


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