(…)
Cães
atiçados às carnes dos colonizados, para lhes arrancarem o “bife”, pedaços da
cara, dos braços, das pernas, dos sexos?
(…)
País
que usava o trabalho dos presos como escravatura nas casas e terras dos
carrascos, ou na construção de obras públicas (…) que país é este?
(…)
Onde
está a brandura, o colonialismo português suave de quem mandava os já
condenados cavarem a sepultura onde iam, em seguida, ser engolidos pela terra?
(…)
Que
país é este, que silêncio vil prossegue com o esquecimento, o doce olvido,
perante uma estrutura de morte que englobava, na sórdida cumplicidade, o
ditador, os ministros, as chefias, médicos e enfermeiros, pessoas anónimas que
sabiam, consentiam, aplaudiam e calavam?
(…)
E porque não soubemos nós punir, denunciar,
expor ao mundo, depois da revolução, a ignomínia praticada?
(…)
Que
continuidade existe entre este país do mal e as hordas que, hoje, insultam e
perseguem imigrantes, os desumanizam como entes inferiores e objetos de ódio?
João Teixeira Lopes, “Público” (sem link)
A 21
de Novembro de 1975, o mais revolucionário dos juramentos aconteceu no quartel
dos Regimento de Artilharia de Lisboa (RALIS), apelidado de “regimento do povo”
(uma daquelas expressões bem batidas no PREC).
(…)
A ala revolucionária do Movimento das Forças
Armadas estava a ultrapassar pela esquerda (e a grande velocidade) a ala
reformista.
(…)
Havia,
nos sectores mais moderados, o receio de uma revolução popular onde os
militares mais à esquerda teriam um papel essencial.
(…)
A
aliança Povo/MFA é consumada naquela cerimónia com a presença com a presença da
coordenadora mista das comissões de moradores e trabalhadores da zona da cidade
de Lisboa, onde se situava o quartel.
(…)
Também ela teve a palavra, algo inédito, mas o
discurso foi todo ao lado e falhou absolutamente as suas previsões.
(…)
Na realidade, não mais os soldados dos RALIS
jurariam a bandeira sem cumprir a disciplina militar.
Ruben Martins, “Público” (sem link)
A floresta portuguesa está num ponto de viragem.
(…)
O verão de 2025 reforçou a urgência. Já arderam
quase 40.000 hectares, sobretudo no Norte e Centro.
(…)
A
floresta tornou-se frágil, vítima da combinação entre seca prolongada, abandono
rural e paisagens monótonas, dominadas por eucaliptos, pinheiros, matos e
exóticas infestantes.
(…)
Insistir em monoculturas de rendimento rápido é condenar o país
à repetição da tragédia, ano após ano.
(…)
Portugal precisa de uma nova economia
florestal, mais diversa e
inteligente.
(…)
A
floresta do futuro tem de proteger, produzir e pertencer — com mosaicos
resilientes que integrem agricultura
regenerativa, sistemas agroflorestais, florestas nativas de rendimento e
produtos não lenhosos.
(…)
Territórios vivos, multifuncionais, onde a
biodiversidade seja um ativo, não um entrave.
(…)
Mas nenhuma transformação será possível sem
inteligência territorial.
(…)
Cabe ao Estado liderar, financiar e coordenar a transição, garantindo o bem
comum.
(…)
A
vigilância e a resposta rápida continuarão a ser necessárias, mas são apenas
parte da solução. A resposta tem de ser sistémica, articulada, estratégica.
(…)
É tempo de apoiar quem transforma, em vez de
subsidiar um modelo que arde, esgota e afasta as pessoas.
(…)
Esta transformação pode e deve ser enquadrada
no novo contexto europeu.
(…)
É tempo de
articular os objetivos de restauro com as políticas de ordenamento e uso do
solo, transformando a crise em oportunidade.
(…)
E
temos de ser claros sobre os custos do imobilismo. O que parece “rentável” hoje
— plantações intensivas sem gestão — é, na verdade, um modelo insustentável,
custeado por riscos coletivos.
(…)
O que está em causa não é apenas o lucro de
alguns, mas a segurança de todos.
(…)
Impõe-se um novo pacto para a floresta
portuguesa — um compromisso nacional até 2050.
(…)
Transformar a floresta não é apenas uma tarefa
técnica: é um desígnio político, ético e civilizacional.
(…)
Só mudaremos o modelo atual se formos capazes
de criar uma alternativa melhor.
Helena Freitas, “Público” (sem link)
A
Educação para a Cidadania no currículo do sistema educativo português tem sido
influenciada por transformações decorrentes de diferentes conjunturas sociopolíticas
internas e externas.
(…)
A recente
proposta curricular do Governo para as aprendizagens essenciais da
disciplina de Cidadania e Desenvolvimento elimina referências explícitas à
educação para a sexualidade e à identidade de género.
(…)
Esta
alteração, em consulta pública, é apresentada como uma “despolitização” dos
conteúdos, quando a educação deve sempre ser organizada, não por razões
políticas, mas, sim, por razões sociais.
(…)
Com a
divulgação do novo programa em consulta pública, confirma-se que essa
“libertação” traduz-se em retirar do currículo praticamente todos os conteúdos
relacionados com a sexualidade e a educação social.
(…)
A identidade de género foi completamente
excluída dos conteúdos.
(…)
O MECI
pode estar a fazer exatamente o contrário do que prometeu: colocar novas
amarras ideológicas numa disciplina que nasceu para promover valores
universais.
(…)
Em vez de atualizar e enriquecer o currículo, a
proposta parece empobrecer a formação dos/as alunos/as.
(…)
A
educação sexual nas escolas não é um capricho ideológico, mas sim um direito
consagrado por lei e uma necessidade prática.
(…)
Não se
trata, pois, de uma querela partidária isolada, mas sim de defender princípios
básicos, assentes no respeito pela diversidade, na segurança e bem-estar dos/as
alunos/as e na continuidade de um projeto educativo inclusivo.
(…)
Concretizar
no currículo um apagão a conteúdos como a igualdade e identidade de género e a
educação sexual significa ignorar realidades que existem na vida de muitos/as
jovens.
(…)
E,
ironicamente, transforma a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento numa
versão diminuída de si mesma, deixando os/as jovens entregues à desinformação.
(…)
[A nova proposta de Cidadania e Desenvolvimento]
em vez de preparar os/as jovens para os desafios do século XXI (…) arrisca
lançá-los de volta à ignorância e ao preconceito que existiu no passado.
(…)
Este apagão curricular sobre a educação sexual
e género não serve o interesse dos/as alunos/s nem da sociedade.
Paulo Marinho,
Carlinda Leite e Angélica Monteiro (sem link)
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