(…)
Não se vira a página alimentando o
populismo fascizante através de condescendência com a pobreza e as
desigualdades, de insuficiências da justiça, da tolerância com o racismo, ou de
entretenimentos alienantes.
(…)
A baixa produtividade é em si mesmo um
problema.
(…)
Promessas de virar a página sem políticas
que rompam, paulatinamente e a prazo, com este passado/presente são
inexequíveis.
(…)
Não foi por falta de estabilidade que o
seu governo não rompeu plenamente com as políticas de austeridade e não começou
a encetar os passos necessários para esse novo virar de página.
(…)
[A esquerda deve] construir uma agenda e
sustentar um governo que mobilize um amplo leque de forças sociais e políticas
e as ponha a dialogar, que promova a recuperação socioeconómica, uma política
industrial e investimento em setores económicos promissores, um desenvolvimento
justo e sustentável.
Numa
campanha eleitoral que se passa quase exclusivamente na comunicação social, os
debates televisivos, mais de 30, acabam por ter mais importância do que se
fossem mitigados por eventos de campanha, que a pandemia hoje não permite.
(…)
Uma campanha eleitoral totalmente dependente da comunicação
social abre caminho a perversidades.
(…)
Trata-se de opinião, de manipulação, de parti-pris, simpatias e
antipatias escondidos sob a intangibilidade da condição profissional.
(…)
Por exemplo,
a frieza de Catarina Martins e Rui Tavares, o cansaço de Jerónimo, a habilidade
de Costa, os labirintos em que se enreda Rio, a agressividade monocórdica de
Ventura, tudo isto se percebe de imediato, seja quais forem as simpatias que se
tenha por cada um deles.
(…)
Aquilo
para que os debates pouco servem é para discutir propostas ou programas de
governação, com o tempo curto de mais para pensar e discutir a sério.
(…)
A
comunicação social está sempre a queixar-se de que não se discutem os
“problemas dos portugueses”, porém aceita um modelo que impede qualquer
discussão.
(…)
Transformar
[os debates] em combates, que é comunicacionalmente mais atractivo, impede que
se tracem as “linhas vermelhas” com propostas antidemocráticas que o crescendo
populista está a colocar em cima da mesa.
(…)
Já se
ganhava alguma coisa se ele [Ventura] fosse confrontado com as suas propostas
antidemocráticas que ele debita como se fossem “normais”.
(…)
A demagogia sobre os salários dos políticos, conduz a que
haja apenas candidatos desqualificados para quem qualquer salário é bom.
(…)
Ou
pura e simplesmente dizer-lhe que numa democracia há o primado da lei, e que as
garantias de defesa e do ónus da prova são para todos, assassinos e corruptos
incluídos.
(…)
E que penalizar os “crimes de colarinho branco” com o dobro
das penas dos assassinos é uma perversão da justiça.
Pacheco Pereira, “Público” (sem link)
Ao contrário do que o comentariado branco defende não existe
arte apolítica, existe arte que politiza e arte que despolitiza.
(…)
Quando é que uma artista negra acumulará prestígio suficiente
para que o seu mérito seja reconhecido como tal?
Mamadou Ba e Ana Teixeira Pinto,
“Público” (sem link)
Para
manter o aquecimento global abaixo dos 2 graus, os governos teriam de intervir
nas decisões das empresas e dos cidadãos.
(…)
Setenta
por cento das maiores empresas não pagam taxa carbono e nos Estados Unidos os
5% mais ricos geram 32% das emissões de CO2. Com que autoridade vão os governos
agir sobre as escolhas individuais?
(…)
Quando algo tem de ser organizado, como é o caso da transição
ecológica, é necessário autoridade.
(…)
O
exercício da autoridade implica, neste caso, que empresas e cidadãos aceitem
obedecer, ou seja, aceitem abdicar da sua liberdade de ação.
(…)
Como impor as restrições necessárias para evitar o colapso
ambiental? E para diminuir as desigualdades, condição indispensável à transição
ecológica?
(…)
Parece-me
mais sensato enfrentar o dilema e deixar de considerar a autoridade como sempre
um mal.
(…)
Contrariamente
aos detentores de poder, os que exercem autoridade não usam meios de coerção
porque a autoridade é voluntariamente aceite.
(…)
Preservar o ecossistema pode e deve ser constituído como
“mundo comum” – o que na realidade é.
(…)
A
função da autoridade é precisamente a de zelar pelo interesse comum, que
consiste hoje em manter a possibilidade da vida na Terra.
(…)
Pensar que as sociedades humanas podem ser guiadas só pela
ciência e pela razão é uma ilusão.
(…)
A história recente mostra que não se consegue assim lutar
contra os apelos ao ódio e ao medo.
(…)
Não se pode ignorar que existem conflitos entre os interesses
individuais e o interesse comum.
(…)
Não teremos mundo se não fizermos alterações radicais nos
próximos vinte anos.
(…)
As democracias políticas ocidentais não souberam impor-se aos
poderes económicos, do qual ficaram reféns.
(…)
Conseguir a transição ecológica exige, todavia, que os
estados se imponham aos gigantes económicos.
(…)
Exige
também um aprofundamento da democracia económica, especificamente, que os
trabalhadores participem nos órgãos de governo e nas decisões das empresas.
(…)
Essa participação representa uma oportunidade privilegiada
para que os trabalhadores tomem consciência dos custos ecológicos dos produtos
que consomem.
Helena Lopes, “Público” (sem link)
A ferrovia traduz de modo perfeito o desafio com que as
atuais gerações se confrontam com a complexidade dos seus obstáculos.
(…)
Sobra pouco tempo ara a descarbonização e ela passa
inevitavelmente e em larga medida pela passagem rápida para a ferrovia como
sistema de mobilidade.
(…)
Ninguém pode negar que, dê por onde der, a muito curto prazo,
passageiros e mercadorias terão de circular fluidamente sobre carris em toda a
UE.
(…)
Nada diminui a incontroversa prioridade que a EU tem de dar –
e depressa – à ferrovia.
(…)
A ferrovia impõe à Europa um exercício de verdade, de vontade
e de união.
(…)
[Portugal] desinvestiu mais do que qualquer outro país
europeu na ferrovia e nas suas ligações internas e externas.
(…)
A política de comboios estará sempre no topo das prioridades
e das urgências enquanto política de ambiente, de mobilidade e de coesão
comunitária.
Luísa Schmidt, “Expresso” (sem link)
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