sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

DESORIENTAÇÃO DA DIREITA, COMEÇA A PERCEBER-SE…


A direita ficou desorientada com a formação do novo governo e, por isso, não consegue articular mais nenhum argumento senão o da ilegitimidade política do Governo PS apoiado à sua esquerda. Há semanas que não consegue alinhavar mais nenhuma ideia para além desta.
É óbvio para a maioria dos portugueses que a exclusão de Bloco e PCP da possibilidade de participarem na área governativa constituía um seguro de vida para a direita que, de uma forma ou de outra, acabaria por fazer parte de qualquer solução.
Começa agora a perceber-se que o enorme e injustificável burburinho que PSD e CDS levantaram (acolitados por Cavaco Silva) perante a formação de uma maioria de esquerda na AR resultava também do receio de que fossem descobertas as trapalhadas da sua acção governativa nos últimos quatro anos. Apenas uma semana depois da tomada de posse do Governo PS, esse receio tem toda a justificação… O que não tem qualquer justificação é que se tenha colocado em causa a legitimidade do actual governo, sabendo-se que nenhuma ilegalidade o atinge.
O seguinte artigo de opinião (*) que transcrevemos do Público de ontem coloca muita clareza nesta situação.
Geralmente consideramos que, em sistemas de governo nos quais o governo emana e depende politicamente do Parlamento (como o parlamentar ou o nosso semi-presidencialista), os Parlamentos que asseguram maior representatividade partidária conduzem a uma situação de menor governabilidade. A ideia é a de que Parlamentos muito fragmentados — ou seja, nos quais não só estão representados vários partidos, como alguns desses partidos ocupam um número razoável de assentos parlamentares — dificultam a obtenção de maiorias absolutas por parte de um só partido, sendo que esse facto, por si só, impossibilita a formação de executivos com boas condições de durabilidade e estabilidade.
Porém, a ideia de que a inexistência de maiorias absolutas vai traduzir-se em situações de ingovernabilidade não é um axioma dogmático. Pelo contrário, na maioria dos sistemas em que o executivo tem base parlamentar e cujos Parlamentos são muito fragmentados, a “tradição” não é a de acreditar que o governo minoritário assumirá funções em condições de instabilidade: a prática é antes a de criar condições para que o executivo disponha das condições mínimas de durabilidade através da formação de governos de coligação e/ou através de acordos de incidência parlamentar.
No entanto, em Portugal, desenvolvemos a ideia de que estas condições de governabilidade só poderiam resultar da obtenção de maioria absoluta por parte de um dos dois maiores partidos (PS ou PSD), da formação de governos de coligação maioritários entre os dois partidos de direita (PSD e CDS) ou, no limite, da formação de coligações entre o PS e os partidos de direita. Mesmo com um sistema eleitoral proporcional que se traduz numa (relativamente) grande representatividade, garantindo nomeadamente que dois partidos de esquerda (BE e PCP) obtinham, eleição após eleição, expressão parlamentar significativa, aceitava-se como verdade absoluta que estes partidos não poderiam nunca contribuir para as condições de governabilidade de um executivo socialista. E, por isso, a maior representatividade partidária, vista em geral como uma característica positiva do sistema político português, tinha, no entanto, esta pecha negativa: ser sempre associada a falta de estabilidade governativa, quando o PS assumia o governo dispondo apenas de maioria relativa no Parlamento.
Este tem sido, aliás, um dos argumentos a favor de uma reforma do sistema eleitoral que instituísse apenas círculos uninominais: com esse sistema maioritário, a representatividade parlamentar diminuiria (os partidos mais pequenos praticamente desapareceriam de um futuro Parlamento), logo, a obtenção de maiorias absolutas sairia facilitada e, assim, PS e PSD teriam, cada um, condições ideais para formarem governo. Este argumento esquece que permitir representação parlamentar a ideias e interesses divergentes traz para o plano institucional o confronto entre elas, fazendo com que esses conflitos não sobressaiam noutras esferas da vida social, nomeadamente em protestos violentos. Mas este argumento esquece, sobretudo, que representatividade e governabilidade não têm que ser antagónicas ou mutuamente exclusivas.
O cenário político actual não veio apenas ultrapassar um bloqueio histórico no nosso sistema partidário, que impedia o entendimento entre PS, PCP e BE. Os acordos de incidência parlamentar, através dos quais os partidos à esquerda do PS apoiam o executivo socialista, vieram mostrar como, também em Portugal, é possível, em novas circunstâncias, manter um elevado nível de representatividade sem, com isso, negar a governabilidade.
Dir-se-á que ninguém sabe qual a durabilidade que este governo irá revelar. Mas esse facto óbvio é verdadeiro para qualquer governo que inicia funções, sobretudo para aqueles que se baseiam em coligações. Lembremo-nos que, dos vários executivos PSD-CDS nestes quarenta anos, só o governo que agora cessou funções conseguiu levar uma coligação até ao término da legislatura (e, mesmo assim, tendo estado seriamente ameaçado no momento da “demissão irrevogável”). Hoje parece exigir-se à esquerda uma durabilidade governativa que a direita nunca havia apresentado. Pode ser que se atinja essa meta, mas, independentemente disso, há que admitir que as condições de governabilidade mudaram e aumentaram em Portugal.
Poder-se-á argumentar ainda que o novo governo socialista terá que negociar detalhadamente várias medidas importantes com o PCP e o BE. Esta ideia tem uma conotação pejorativa porque vivemos um tempo que valoriza uma política de “consensos” — que nega a essência da democracia. Pelo contrário, o diálogo político constante é a base de qualquer sistema que assente num Parlamento fragmentado sem que isso cause necessariamente instabilidade.
No fundo, a partir de agora sabemos antes que, mantendo a representatividade, as várias vozes representadas no Parlamento podem ser chamadas a contribuir para a governabilidade. Isso não prejudica, antes melhora, as condições de formação e de manutenção de governo.
(*) Ana Rita Ferreira, politóloga

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