quinta-feira, 23 de maio de 2019

DEFENDER O CLIMA É A MAIOR TAREFA QUE ALGUMA VEZ FOI COLOCADA À ESPÉCIE HUMANA



Numa altura em que vai ter lugar uma nova greve climática por parte dos jovens de todo o mundo, em defesa da humanidade tal como a conhecemos, tem todo o cabimento que os mais relevantes especialistas na defesa do ambiente se pronunciem relativamente à catástrofe de que se abeira o nosso planeta, caso não sejam tomadas medidas da máxima urgência no que diz respeito às alterações climáticas em curso. Há mais de trinta anos que cientistas de relevo se vêm pronunciando sobre a necessidade de se impedir que a destruição da vida na Terra atinja um ponto de não retorno. Quase todos os pronunciamentos sobre esta temática têm caído em saco roto perante a força de interesses poderosíssimos em várias áreas, nomeadamente no que diz respeito ao travão que deve ser colocado no consumo de combustíveis fósseis.
Feliz coincidência é também a realização das eleições europeias que trouxeram à baila a discussão das alterações climáticas ainda que com intervenções de grande hipocrisia por parte daqueles que durante anos não quiseram discutir esta temática.
Sobre o tema em apreço, deixamos aqui mais um oportuno artigo de opinião, assinado por João Camargo, investigador em alterações climáticas, que veio à estampa no “Público” de hoje.

Não foi surpreendente ouvir o ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, dizer no Parlamento que uma declaração de Emergência Climática em Portugal seria apenas simbólica. Foi coerente e há que reconhecer a coerência a quem nunca mostrou perceber a química da atmosfera. Jovens por todo o mundo sairão novamente às ruas para demonstrar, num movimento cada vez mais continuado, que a impotência de governantes não produz automaticamente impotência na população. 
Os números devem ser repetidos, precisam ser repetidos: segundo o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, para evitarmos um aumento de temperatura acima dos 1,5ºC, precisamos cortar 50% das emissões de gases com efeito de estufa até 2030. Será a maior revolução da História da Humanidade e consegui-lo não será apenas de um processo adaptativo, mas sim de uma deslocação fundamental do poder, a retirada de uma força incomensurável do comando dos destinos da Humanidade.
Precisamos repetir: desde 2015 que devíamos ter parado todos os novos projectos de combustíveis fósseis à escala global, para manter o aumento da temperatura abaixo dos 2ºC (a meta indicativa do Acordo de Paris). Com a meta dos 1,5ºC, temos de fechar infra-estruturas fósseis já em funcionamento e que se manteriam ainda no futuro. 
Estamos a falar das nações mais ricas do mundo e das empresas mais poderosas que já existiram abdicarem de cerca de 90% do que têm em reservas de petróleo, de gás e de carvão. Porque, ao contrário da obediência cega a regras financeiras e orçamentais, nomeadamente à ideia de que deve haver um equilíbrio nas contas públicas entre despesas a receitas, há um desprezo total pelo equilíbrio orçamental do carbono atmosférico. O problema é que desprezar o orçamento de carbono significa destruir as condições materiais que permitiram o surgimento da civilização humana e condenar a Humanidade a tentar sobreviver num planeta que ser-lhe-á mais agressivo do que nunca.
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Uma parte relevante da economia capitalista e das forças políticas que a gerem (sejam partidos, empresas ou think tanks) estão a tentar vender-nos a ideia de que é possível negociar com a química da atmosfera, estão a repetir-nos quase diariamente que é possível convencer moléculas de dióxido de carbono e de metano a não absorverem tanto calor. Temos adultos a subir a púlpitos e a falar directamente para microfones, dizendo a países inteiros que “estão a fazer o que é politicamente possível”. Mas uma molécula de dióxido de carbono não está minimamente preocupada com questões de justiça, uma molécula de metano está-se borrifando para expectativas de rendimentos futuros, as concentrações atmosféricas não poderiam estar mais longínquas da discussão acerca da necessidade da economia crescer ou qual a competitividade de um país em relação ao outro. A única coisa que acontece quando há mais moléculas na atmosfera a receber mais radiação é que fica mais quente. Não é um processo de negociação, com troca de argumentos, retórica, e se conseguirmos uma capa de jornal ou a abertura de um telejornal a dizer que o dióxido de carbono é um extremista ou um radical, ou que o metano é irrazoável nas suas exigências, tal não provocará nenhuma modificação nas características químicas dessas moléculas. E, por isso, quantas mais moléculas forem colocadas na atmosfera, mais nos aproximaremos da inviabilidade.
Segundo a ciência climática, estamos na década zero para podermos evitar ultrapassar concentrações atmosféricas sem retorno que implicarão fenómenos climáticos de escala global que passarão a reforçar o aquecimento do planeta, como o colapso da Amazónia ou a paragem da circulação termoalina. As moléculas de dióxido de carbono que colocarmos hoje na atmosfera ficarão lá em média 120 anos e as de metano em média 12.
Não havendo negociação possível com a química da atmosfera, resta negociar com pessoas que compreendam a química da atmosfera e o que significa a modificação destas concentrações. Os cientistas estão a informar-nos há pelo menos três décadas daquilo que está a acontecer, mas só agora há, pela primeira vez, movimentos de massas em apoio à justiça climática e à acção climática contundente
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A resposta de Matos Fernandes no Parlamento representa a satisfação de ser Campeão do Mundo do Fim do Mundo. Portugal é – de facto – um dos países do mundo que mais políticas climáticas tem aprovado, em particular na última década e meia. Mas o grave é que nem um dos países do mundo com mais políticas climáticas aprovadas está a fazer o suficiente para evitar o colapso climático. Se as políticas de Portugal fossem as de todos os países do mundo, não conseguiríamos travar o aumento de temperatura nos 2ºC, mas os dirigentes políticos escudam-se na inacção de outros para evitarem ter políticas coerentes com o que diz a ciência. Portugal não está a fazer o suficiente. Os outros países ainda menos. Nesta corrida para o precipício a mediocridade e a cobardia política serão factores tão importantes quanto a negação da ciência, em países muito mais importantes e com muito mais responsabilidades do que Portugal alguma vez terá. 
Estando no final a campanha eleitoral, agora quase todas as candidaturas assumem discursos de “miss” a reivindicar acção contra a crise climática, depois de a maior parte ter passado anos a fazer exactamente o contrário disso. Não temos tempo para recriminações sobre o passado, mas tampouco temos tempo para nos escudarmos em falsas soluções e na ideia de que este será um processo lento que não afectará o status quo. Foi o status quo do capitalismo global que nos pôs nesta situação, não a resolverá, e só com imensa coragem colectiva conseguiremos ganhar a maior tarefa que alguma vez foi colocada à espécie humana. Os jovens voltam às ruas e o movimento global pela justiça climática está com eles. Coragem, já é tarde demais para ser pessimista.

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