sexta-feira, 26 de julho de 2019

O EXEMPLO DAS REFORMAS DOURADAS DOS POLÍTICOS


Pedro Filipe Soares, líder parlamentar do Bloco de Esquerda teve uma excelente ideia ao escolher como tema desta semana do artigo de opinião que assina no “Público” as “reformas douradas dos políticos”.
A época de pré-campanha eleitoral para as Legislativas de Outubro é um momento propício para estes assuntos virem à tona e perceber-se de que lado se encontra cada um dos partidos concorrentes e que comportamento teve no passado. É inaceitável “que um detentor de um cargo político por 12 anos conquistasse o direito a uma pensão para toda a vida como acontecia a governantes, deputados ou autarcas”, mas é bom recordarmos a resistência que a direita e o PS mostraram ao fim de um privilégio de um grupo que se queria apresentar como uma casta com direitos muito acima dos restantes cidadãos deste país.
Quando a direita dos interesses, através dos seus representantes na esfera política, começa a reivindicar, cada vez com mais força, a “reforma do sistema eleitoral” com a criação de círculos uninominais, percebe-se como seriam abordados os principais problemas deste país, com deputados quase exclusivamente originários da área do bloco central. O que se passou com os privilégios que usufruíram durante anos os detentores de cargos políticos é bem um exemplo a ter em conta sobre o que sucederia se PS e PSD cozinhassem a legislação em favor das suas clientelas, deixando largas franjas da população com os seus interesses ao abandono. É bom recordarmos que a criação de círculos uninominais levaria à quase extinção parlamentar dos chamados pequenos partidos. É, pois, muito importante estarmos todos alerta sobre o futuro desta ideia que só traria benefícios para os privilegiados actuais. Tem, pois, muito interesse a leitura integral do artigo de Pedro Filipe Soares que aqui deixamos.

“Debate-se hoje uma questão de todo pertinente nas sociedades democráticas: será que servir a coisa pública, só por si, já não constitui estímulo suficiente para os cidadãos? A resposta a esta pergunta parece, dadas as mordomias, benesses e regimes de excepção previstos no nosso ordenamento jurídico para os que servem a coisa pública, um rotundo e cristalino não!” Este preâmbulo dava o mote ao Projeto de Lei do Bloco de Esquerda apresentado em outubro de 2004, que marcou o início do fim das subvenções vitalícias.
Não são direitos, são privilégios de uma casta. Não é minimamente compreensível que um detentor de um cargo político por 12 anos conquistasse o direito a uma pensão para toda a vida como acontecia a governantes, deputados ou autarcas. A ideia de um regime à parte para políticos é inaceitável e inconcebível. Ainda bem que acabou.
O toque de finados do regime de privilégio aconteceu finalmente em 2005. Mudada a composição da Assembleia da República e com um novo Governo, apenas o CDS faltou com o seu voto para acabar com as regalias. No entanto, fechada a porta, PS e PSD abriram a janela às benesses, introduzindo um regime transitório que manteve as subvenções vitalícias que já estavam em pagamento e a possibilidade de novos requerimentos pelos deputados, governantes ou autarcas, que cumprissem os requisitos à data do fim de regime.
Em 2013 conseguimos acabar com este regime regime transitório, apesar de muitas vozes revoltadas pelo centrão. Dessas vozes, um conjunto de deputados de PS e PSD fizeram um pedido de fiscalização da constitucionalidade desta medida. O Tribunal Constitucional deu-lhes razão e um último sopro de vida às subvenções vitalícias.
Contudo, se o enredo político mostra como existiu muita má vontade para acabar com as reformas “douradas”, o processo recente mostra como há muita má consciência nas pontas soltas que subsistem. A lista dos beneficiários das subvenções vitalícias foi divulgada em 2016, após um longo braço de ferro jurídico com o Ministério do Trabalho. A Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (CADA) deu razão à transparência e a lista veio à praça pública: permanecem 320 beneficiários de subvenções vitalícias. Mas foi sol de pouca dura, já que pouco tempo depois o Ministério do Trabalho suspendeu a divulgação da lista alegando restrições do novo regulamento da Proteção de Dados.
Questionado o ministério sobre a decisão, logo a responsabilidade foi atirada para a Caixa Geral de Aposentações (CGA). A transparência foi mandada para a casa de partida, reinando novamente a opacidade. Como o apagão da lista não passou no escrutínio público, o PS veio tentar salvar a face desta trapalhada a prometeu alterar a lei de proteção de dados para tornar possível a divulgação dos nomes.
Só que o tempo passou e a proposta não chegou. Afinal, virados os holofotes mediáticos para um outro tema qualquer, o PS meteu a intenção junto com a lista: na gaveta. Foi no início da semana, quando o tema entrou novamente no radar, que o PS foi forçado a mais uma cambalhota e o Governo correu a legislar. Em contra-relógio fizeram o que antes era impossível.
Poderíamos recorrer a Noam Chomsky e dizer que se tratou de uma estratégia bem orquestrada, a tal do problema-reacção-solução onde maquiavelicamente se cria a perceção de um problema para potenciar uma reação e apresentar depois uma solução salvífica. É certo que nunca houve nenhum problema legal, dado que em todo este tempo a CGA continua a divulgar outras listas de nomes como é o caso dos funcionários públicos que se reformam e do valor das suas pensões individuais. Mas, também, nunca houve nenhuma vontade de divulgar a lista dos beneficiários das subvenções vitalícias. Na verdade, tratou-se de falhar deliberadamente num dos pilares de uma democracia: a transparência. É que a elite gosta das suas benesses e privilégios, mas tem vergonha quando lhe apontam o dedo.
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A posição indefensável do PS mostra o ridículo da ocultação das listas de privilegiados e a defesa da casta. O sapo que o PS engoliu é a vitória da democracia. A democracia vive de escrutínio e tem de respirar transparência, não aceita poderes absolutos que se julgam acima da sociedade.

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