terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

INESPERADO SALVO-CONDUTO


Os portugueses ficaram a perceber por estes dias o logro político que constitui o possível futuro candidato do PS a primeiro-ministro. A imagem de António Costa (AC) que se foi construindo ao longo do tempo dava-o como uma pessoa competente, séria e politicamente preparada pelos longos anos de tarimba. No entanto, ao primeiro embate a valer, percebeu-se que não é bem assim e que, para quem está farto de personalidades como Sócrates ou Passos Coelho (para mencionarmos apenas os mais recentes), terá de pensar noutro nome com um perfil que corresponda à necessidade de alguém com carácter mínimo de estadista que possa dar garantias sérias de uma governação sem os solavancos – é a designação mais branda que nos ocorre – que temos vindo a sofrer na nossa história recente.

Se já se percebeu que Seguro constitui um seguro de vida para a maioria de direita, com AC como secretário-geral do PS, Passos Coelho e Portas teriam um inesperado salvo-conduto para continuarem a destruir o país até ao fim da legislatura. Uma oposição de esquerda que se prese não pode estar á espera que o Governo caia de podre para chegar ao poder. As forças à esquerda do PS vão fazendo o que podem, dentro dos limites que dispõem que não chegam para destronar o poder da direita e acabar com o mal que estão a fazer aos portugueses.

Como complemento deste comentário, deixamos aqui os dos primeiros pontos do excelente texto que José Vitor Malheiros apresenta hoje no Público (*):

1. Nos últimos anos, fomo-nos habituando à ideia de que António Costa seria o melhor a que podíamos aspirar como primeiro-ministro, se considerássemos os políticos à esquerda do centro. Não sendo concebível uma maioria eleitoral de esquerda sem o PS, o primeiro-ministro a sair de uma eventual maioria de esquerda teria de vir daquele partido e Costa parecia ser o mais potável. Tem uma carreira de governante prestigiado, tem sido um presidente de câmara aceitável e capaz de gerir alianças, parece determinado mas sensato, tem a suficiente agressividade política mas não parece ser comandado pelos seus ódios pessoais, demonstra preocupação social, consegue construir um discurso alternativo ao do Governo ainda que na variável português suave, tem à-vontade e a suficiente capacidade de expressão e argumentação - o que o torna um tigre da Malásia ao lado de periquitos como Pedro Passos Coelho ou António José Seguro - e, o que é essencial num líder político, não põe as sobrancelhas em acento circunflexo para se dar ares de estadista. Para mais, o que começa a conferir uma certa excentricidade a um líder partidário, é licenciado pela Faculdade de Direito e não pela Universidade Lusíada, como Passos Coelho; nem pela Independente, como José Sócrates; nem pela Autónoma, como Seguro.

É verdade que apoiou, cobriu, acompanhou e desculpou José "Zé" Sócrates para além do que seria imaginável ou conveniente, mas pensávamos, apesar disso, que ele seria o melhor possível, neste mundo onde a oferta não abunda. Os acontecimentos dos últimos dias não vieram desmentir isto. É possível que Costa continue a ser o melhor candidato a PM a que este país pode aspirar. O que os últimos dias vieram mostrar foi que, se isto é o melhor a que podemos aspirar, estamos mais tramados do que julgávamos. A chatice é que um líder político não se faz em seis meses e os últimos anos não parecem ter sido um alfobre de competência política, de empenhamento democrático, de honestidade republicana, de audácia no combate político, de capacidade de liderança. Assim, não há qualquer razão para pensar que os próximos anos nos vão oferecer um sortido mais estimulante de líderes políticos do que aquele com que podemos contar hoje. Como se faz então? Só vejo uma saída: se Costa é, de facto, o melhor que podemos esperar, alguém lhe pode dar a receita daquelas coisas que o Lance Armstrong tomava? Temos a sorte de que, por enquanto, não há testes antidoping na política. Porque não aproveitar a janela de oportunidade? Talvez Costa só precise de uma forcinha.

2. Depois de convencer Costa a avançar, é preciso explicar-lhe algo que todos pensávamos que ele sabia mas mostrou que não sabe: o maior problema que existe em Portugal é o Governo e a política do Governo. O que significa que a coisa mais urgente a fazer é combater a política do Governo e, de preferência, substituir o Governo, antes que ele liquide a democracia, extermine os portugueses, destrua o país e venda os salvados à Goldman Sachs. A unidade do PS só é importante se ela estiver ao serviço da causa nacional que é o derrube do Governo e a sua substituição por outro que ponha em prática uma política alternativa, apostada na justiça social e no desenvolvimento económico, na renegociação da dívida e na inflexão da política europeia. Se o PS não servir para isto, a sua unidade não serve para nada. António Costa diz que os militantes do PS não querem confrontos internos e que querem ver o PS concentrado na oposição ao Governo. Mas o que Costa deveria explicar aos portugueses (os militantes do PS estão incluídos) é que é necessária uma nova liderança no PS para que este faça oposição em vez de salpicar os telejornais com os habituais comentários ocos dizendo que o PS é responsável, está disponível, tem alternativas e se vai abster violentamente.

(*) “O Governo e o PS ou o lume e a frigideira”

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