Pelos
sinais que nos vão chegando das mais diversas partes do Globo, temos sérias
razões para acreditar que a democracia pode estar em risco, caso os povos
continuem a aceitar com algum beneplácito governantes de cariz marcadamente
autoritário. Aliás, por essa Europa fora, todos estes casos têm ocorrido através
do voto popular. Já não são poucos e outros poderão estar a caminho.
Percebe-se
claramente que as populações se encontram descontentes com o regime democrático
porque as lideranças por si escolhidas através do voto falham sistematicamente
no cumprimento das promessas feitas durante as campanhas eleitorais. Em Portugal
temos um exemplo recente do que aconteceu como Governo Passos/Portas em que,
uma vez contados os votos, todas as promessas eleitorais foram deitadas ao lixo,
numa evidente prova de desprezo pela vontade dos eleitores livremente expressa,
favorecendo acima de tudo poderes fácticos, não eleitos, cujos principais
representantes se encontram instalados na União Europeia.
Mas
é para os Estados Unidos da América, a maior potência mundial, que devemos
apontar as nossas atenções numa altura em que por lá já se esboça uma forte resistência
aos atropelos à democracia, como podemos ler no seguinte artigo de Bárbara Reis
(*) que transcrevemos do Público de hoje.
Roubo ao Washington Post o título deste texto. “Democracy
Dies In Darkness” é o novo slogan do jornal (e primeiro) e aparece
abaixo do logótipo no papel e no online desde Fevereiro.
Pensamos logo em Donald Trump e é sobre isso, a ameaça
que paira sobre a democracia, que muitos académicos discutem neste momento.
Quando clicamos na frase, vamos parar ao microsite de venda de assinaturas.
Como quem diz: se quer que o Post continue a defender a democracia,
pague o jornalismo que fazemos.
A resposta tem sido extraordinária — e nisso os
jornais de qualidade têm a agradecer a Trump. Nos primeiros 18 dias a seguir à
sua eleição, o New York Times teve um pico de 140 mil novos assinantes e
no primeiro trimestre deste ano conquistou ao todo 276 mil novos assinantes.
Num programa que convida mecenas a oferecerem assinaturas digitais a estudantes,
há doações de quatro dólares, mas também de 20 mil. E o Times não está
sozinho. Neste mesmo período, o Los Angeles Times aumentou 60% as
assinaturas digitais. E só a 9 de Novembro, um dia após a vitória de Trump, o Wall
Street Journal teve um aumento de 300%.
O novo motto do Washington Post tem e
não tem que ver directamente com Trump. A frase tem 40 anos. Bob Woodward, o
célebre jornalista que ajudou a revelar o escândalo do Watergate, usa-a há anos
para falar de Richard Nixon, mas roubou-a ao juiz Damon Keith, do Tribunal de
Relação Federal, que nos anos 1970 escreveu “democracy dies in the dark” numa
deliberação que obriga o Governo a ter mandatos judiciais para fazer escutas.
Com este histórico, em Maio, Jeff Bezos, fundador da Amazon e proprietário do Post,
usou a frase para explicar a razão que o levou a comprar o jornal. “Muitos de
nós acreditam que a democracia morre na escuridão e que certas instituições têm
um papel muito importante em garantir que há luz.” Como o Post.
É verdade que a frase é um pouco pomposa. Tem toques
de Guerra das Estrelas e coloca os jornalistas no papel de guerreiros
defensores do mal que vem aí. Mas põe o dedo na ferida do debate mais erudito
da era dos “factos alternativos”.
Em Novembro, dois respeitados cientistas políticos
americanos, Robert Stefan e Yascha Mounk, escreveram um ensaio que está a ser
estudado nas universidades, incluindo as portuguesas. O texto chama-se Sinais
de Desconsolidação e defende que os cidadãos ocidentais estão cada vez mais
críticos da democracia — coisa que já sabíamos — mas sobretudo cada vez mais
abertos a regimes autoritários. Um dos sinais da “desconsolidação” é o facto de
haver cada vez mais pessoas — sobretudo os jovens, coisa que não sabíamos —
favoráveis à ideia de os seus países terem “um líder forte que não tem de se
preocupar com parlamentos ou eleições”. Em Dezembro, Erik Voetan entrou na
polémica e tentou demonstrar que os sinais identificados não provam um
entusiasmo alarmante em relação a alternativas não democráticas. E, esta
semana, mais dois académicos, Erik Jones e Matthias Matthijs, publicaram um
texto a propor que não nos centremos nas sondagens e estudos de opinião, mas no
comportamento das elites.
No fundo, ninguém sabe exactamente se a democracia já
está com bandeira amarela. Trump, quando diz que “os media são o inimigo
do povo” não ajuda. Mas o Washington Post, que acaba de ganhar um
Pulitzer com uma investigação sobre a falsa filantropia do Presidente americano,
não está a ser um herói cavaleiro. Está só a tentar que o pessimista Yascha
Mounk não tenha razão.
(*) Neste texto apagámos alguns
links por nossa iniciativa.
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