segunda-feira, 1 de julho de 2013

GRANDE VITÓRIA DOS PORTUGUESES


A greve dos professores e a greve geral constituíram, no seu conjunto, uma monumental derrota para o Governo, embora tenham sido realizadas num momento particularmente difícil para os trabalhadores, como muito bem aponta Daniel Oliveira na coluna do passado sábado, que assina no Expresso. A propaganda governamental, as dificuldades económicas que põem em questão a perda de um dia de salário e o medo das já tristemente famosas listas de requalificação, leia-se despedimento, que já se encontram em elaboração, seriam razões mais que suficientes para que as greves fossem pouco participadas. No entanto, foi praticamente o contrário que aconteceu, como se pôde verificar pela reacção rancorosa do próprio Governo em relação aos grevistas.

Mas leia-se o excelente texto de Daniel Oliveira:

 

A SOLIDÃO DE PASSOS

Nuno Crato foi só a primeira vítima da dificuldade crescente que este Governo tem em medir as suas exíguas forças. Decidiu levar o braço de ferro com os professores até ao fim. Não mudou a data do exame de 17 de Junho, convocou todos os professores e estava convencido de que teria uma vitória garantida. Se o exame acontecesse, teria a população contra os professores. O exame aconteceu para una e não aconteceu para outros. Mas a maioria da população não se pôs ao lado do Governo. Poderá não ter apreciado especialmente a paralizaçao, mas ficou à espera que fosse o ministro a resolver o problema. E Crato foi obrigado, não só a mudar a data do exame seguinte, como, em vésperas de greve geral, a ceder aos sindicatos em toda a linha.

A greve geral de quinta-feira ocorreu, para quem a quisesse fazer, no pior momento possível. Dos que foram trabalhar, poucos disseram “não quero”. Quase todos diziam “não posso”. O forte desemprego cria ansiedade e medo de perder o posto de trabalho. Mesmo na administração pública, as listas de quem vai ser “requalificado” já começam a correr. E em muitas empresas do Estado, sobretudo as que se preparam para processos de privatização ou reestruturações, os boys do Governo há muito espalharam o medo entre os funcionários. Já nem no sector público há qualquer sensação de segurança. As enormes perdas salariais e aumentos de impostos, no público e no privado, não deixam margem para a perda de um dia que seja de salário. Nas pequenas empresas, a falência eminente torna ainda mais complicada a decisão de fazer greve que não tem como alvo o patrão. E, no entanto, assistimos a uma greve maior do que o habitual no privado. Não no pequeno comercio ou serviços, como nunca acontece em país algum. Mas em grandes unidades fabris. Aquelas que, pela sua importância exportadora, maior efeito têm na economia. E não foi apenas na Autoeuropa. Em dezenas de grandes unidades industriais (dos Estaleiros de Viana à Tudor, da Lisnave à Centralcer, da Central Termoelétrica de Sines à Browning) a greve ultrapassou os 60%.

Mas o mais importante desta greve foi as compreensões com que contou. A Confederação do Comércio disse que a compreendia. A da Indústria que o Governo empurrou os sindicatos para ela. A da Agricultura disse que havia mais do que motivos para a indignação dos trabalhadores. A UGT endureceu o seu discurso. E até ouvi um deputado do PSD a defender, na televisão, que o executivo deveria aproveitar a greve para mostrar à troika que a estabilidade social será impossível de manter. O que esta greve revela, quando é feita num momento tão difícil par a levar à prática, é o extraordinário isolamento de um primeiro-ministro, sem paralelo na nossa história recente. Como vimos com Nuno Crato, o Governo ainda não percebeu muito bem como é frágil a sua situação. E muitos acreditam que a paz podre se manterá, por medo, desesperança ou falta de alternativas. Acho que estão enganados. Não serão as autárquicas ou o CDS, como imagina o mundo político e mediático, a mudar tudo. Será um qualquer erro de cálculo, tão fácil de acontecer a quem já não tem amigos que lhe chamem à razão. Basta uma nova TSU ou um novo “caso Relvas” e este Governo, preso por arames, não se aguentará.
 

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